Traficantes levam ovos de pássaros para o exterior
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domingo, 20 de fevereiro de 2000
Por Edson Luiz 
Brasília, 21 (AE) - A Divisão de Polícia Criminal Internacional (Interpol) descobriu uma nova modalidade de tráfico de animais no Brasil. Em vez de pássaros, os contrabandistas estão levando ilegalmente ovos para o exterior. Segundo investigações da Interpol, os ovos são recolhidos no período de reprodução das espécies e enviados principalmente para a Europa e ásia, antes de chocados. Um só carregamento, feito normalmente em valises, pode render até US$ 6 milhões.
De acordo com avaliação da entidade ambientalista Fundo Mundial para a Natureza (WWF), depois do tráfico de drogas, o contrabando de animais é o negócio ilícito mais lucrativo no mundo, movimentando anualmente algo em torno de US$ 10 bilhões. A maior parte desse negócio é feita em território brasileiro.
Segundo o delegado Jorge Barbosa Pontes, vice-diretor da divisão brasileira da Interpol, uma das espécies mais visadas pelos contrabandistas é a ararinha-azul, que está sob ameaça de extinção no País. "Além disso, já apreendemos muitas araras-azul-de-lear, outra espécie que está se tornando rara", informou Pontes. "A ararinha-azul não tem nem mais preço estipulado no mercado negro." Hoje, estima-se que existam 29 animais dessa espécie em todo o mundo, reproduzidos ou levados do Brasil.
Os pássaros tropicais hoje alcançam preço elevado no exterior, principalmente em países europeus. Como a Interpol intensificou a fiscalização, o tráfico está sendo feito de maneira diferente. Os contrabandistas utilizam coletes próprios de fotógrafos ou pescadores, ou mesmo maletas executivas (tipo 007), para levar ovos. Pelas investigações da Interpol, em uma maleta é possível levar até 60 ovos.
Pontes afirmou que alguns pássaros tropicais, principalmente papagaios e araras, chegam a ser avaliados no mercado negro europeu e americano em até US$ 100 mil. Pela avaliação da Interpol brasileira, cada carregamento de ovos feito para o exterior pode chegar a US$ 6 milhões.
Na avaliação da polícia, o tráfico de animais é semelhante ao tráfico de drogas, que se aproveita da miséria da população local e da densidade das florestas brasileiras para agir. "O contrabando animal nasce no interior, nas florestas, onde gente humilde e pobre é utilizada para capturar pássaros, ovos e animais silvestres em troca de migalhas", afirma o delegado. "O apanhador, um humilde matuto, ganha pouco ou quase nada pelo serviço."
Facilitação - Nas investigações feitas pela Interpol, constatou-se que o tráfico de animais também pode contar com outras pessoas, estrategicamente posicionadas em diversos locais
como nos portos, aeroportos e fronteiras dos países. Um relatório da unidade de inteligência da Interpol mostrou que essa modalidade de crime pode estar sendo feita por diplomatas e funcionários com imunidade diplomática.
Hoje, o objetivo da Interpol brasileira é descobrir os grandes criadores internacionais, que muitas vezes adquirem os ovos, ou pássaros, para fazer a reprodução clandestina no exterior. "Eles adquirem os ovos para formarem matrizes", afirma Pontes. Mas, segundo ele, também é preciso investigar o tráfico em pequenas quantidades, principalmente nas feiras e mercados em todo o País.
Segundo um relatório da WWF, hoje no Brasil existe um mercado subterrâneo, "que se movimenta à luz do dia, em feiras populares, por todo o País". Os principais pontos desse mercado estão situados na Bahia, Pará, Manaus e Rio de Janeiro, onde a Polícia Florestal identificou pelo menos 80 locais de venda clandestina de aves. A principal é a feira de Duque de Caxias, onde papagaios, tartarugas e tucanos são vendidos livremente e embalados em sacolas de supermercados.


