Traficantes já estão usando a Internet
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sábado, 05 de abril de 1997
Silvio Barsetti Agência Estado, do Rio 
Arquivo FolhaNa penumbraA polícia descobriu que os internautas se comunicam em códigosA polícia fluminense está investigando denúncias de que traficantes do Rio estariam usando a Internet, a maior rede de comunicação do mundo, para a venda de drogas. A apuração do caso está sob os cuidados do delegado Cláudio Luiz Goes, titular da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), por determinação do chefe de Polícia do Rio, Hélio Luz. Os indícios estão sendo levantados através de consultas on line - um sistema que permite bate-papos em tempo real e onde a identificação das pessoas é muito difícil de ser checada.
A Agência Estado teve acesso a várias conversas on line em que possíveis usuários e traficantes de drogas discutiam sobre a qualidade e o preço dos entorpecentes. Numa delas, na madrugada de 20 de março, um suposto traficante forneceu detalhes - confirmados pela Polícia - sobre o funcionamento do movimento de drogas no Morro dos Macacos (zona Norte), e contou parte do esquema pela rede.
Nos últimos dias, internautas (pessoas que acessam a Internet) acostumados a frequentar canais de conversação em que há maior número de moradores do Rio confirmaram a existência de um mercado livre de venda de drogas via Internet.
Na madrugada de quinta para sexta-feira, o canal Maconha, na Rede Brasirc, era um dos mais badalados. Entre 3h30 e 5h13, ele recebeu 16 visitantes. Muitos se comunicavam em códigos, utilizando-se de números para respostas mais cuidadosas. Num dos bate-papos centrais do canal, um usuário da rede, identificado como Masoch, quis saber o preço da maconha. Imediatamente, recebeu recado na tela central de outro internauta, Trevi, para que o chamasse numa janela particular.
É a primeira vez que a Polícia do Rio faz uma investigação sobre o uso da Internet por traficantes, declarou Helio Luz. São dados interessantes. Os traficantes agiriam da seguinte forma. Primeiro, chamariam seus alvos para uma conversa privada. Após perguntas aparentemente despretensiosas, sobre idade e bairro do interlocutor, por exemplo, poderiam avançar ou não no bate-papo. A continuidade estaria associada ao fato de a pessoa morar no Rio.
Num segundo momento, de acordo com o interesse demonstrado, haveria a oferta e a descrição do usuário que compraria a droga. Também combinariam o local - normalmente em frente a um bar movimentado da cidade - e a hora da entrega. Para evitar uma ação policial, o encontro exigiria alguns cuidados. O comprador teria que chegar desacompanhado e em no máximo 30 ou 40 minutos ao ponto. Se descumprisse o acordo, seria ignorado.
O estudante de Sociologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Marco Fonseca, de 31 anos, recebeu ofertas de drogas algumas vezes na Internet. Ele costuma navegar pelos canais Rio, Amigos e Brasil e afirma que já aprendeu a detectar os internautas que trabalhariam para o tráfico. Eles agem quase sempre de madrugada com abordagens estranhas que deixam margem a uma dupla interpretação, contou.
Segundo Fonseca, a procura de drogas pela Internet é tão comum quanto à obsessão por sexo. Para a maioria dos usuários sem intimidade com os recursos da Internet é impossível identificar outros internautas.
Canal informalExistem cinco redes brasileiras de acesso a canais de conversação: Brasirc, Brasnet, Brasilnet, Brasilianet e XTranet. Cada uma delas é composta por servidores, utilizados como elo para os bate-papos on line. Fábio Pedroso, um dos organizadores da Brasirc, que controla 76 servidores, confirmou a existência do canal Maconha na rede. Mas não é registrado por nós, já que qualquer internauta pode criar um canal informal e convocar sua turma, explicou.
Segundo ele, se houvesse algum impedimento, uma novo nome seria dado ao canal. A gente proíbe o Maconha e os caras criam o !Maconha; fica uma briga de gato e rato. Pedroso acredita que outros recursos da Internet poderiam estar a serviço dos criminosos. Além dos canais de conversação, eles podem muito bem se comunicar por páginas ou via e-mail (correio eletrônico), disse.


