Em Barrancomina, um vilarejo pobre com 1,5 mil habitantes, em plena Amazônia colombiana, o carioca Fernandinho, criado na favela Beira-Mar, de Duque de Caxias, se sentiu em casa. Contava casos, jogava futebol, promovia rodas de samba. Às vezes trazia prostitutas, muchachas do Brasil.
Chegava à cidade de avioneta particular, vindo da região de fronteira com o Brasil pelo Rio Vaupés. Dali, subia e descia o Guaviare de lancha voadeira, percorrendo laboratórios de refino de cocaína em Puerto Ramos, Barranco Murciéliago, Barranco Picure. Neste último povoado, a Gato Negro estourou uma verdadeira refinaria, capaz de produzir duas a três toneladas da droga por semana, com instalações para hospedar 50 trabalhadores.
Em toda parte, dom Alvaro era visto rodeado de guerrilheiros – guarda-costas, segundo os camponeses da região. Mais de uma vez, manteve longas conversas com o Negro Acacio, os dois confrontando números anotados em um caderninho: a contabilidade de transações de cocaína por armas, segundo os investigadores. ‘‘Ele é assim com as Farc’’, confirma um morador de Barrancomina, identificado apenas como Pluto.
Os próprios promotores que há décadas investigam os cartéis do tráfico na Colômbia admitem que as evidências recolhidas no Guaviare ainda não são provas diretas de que a guerrilha é quem controla o negócio da cocaína na área. Mas elas dão uma noção do vulto dos negócios colombianos de Beira-Mar.
Fuga Consta que seu ‘‘cartão de visita’’ em Barrancomina foi uma remessa de fuzis e pistolas, entregues ao Negro ainda em 1997. Desde então, em estadas cada vez mais frequentes e prolongadas, foi montando uma rede de laboratórios de refino – parte do processo que não dominava antes de conhecer a Colômbia in loco.
Beira-Mar teve de fugir do Paraguai em 99, depois de prisões e guerras em sua organização, no Paraguai e no Brasil. O período coincide com a desgraça e fuga, no Paraguai, do general Lino Oviedo, acusado de acobertar o tráfico de drogas e armas – e hoje preso no Brasil, com processo de extradição em andamento. Dom Alvaro é hoje peça-chave para as duas partes em um momento crítico de um conflito que se arrasta há quatro décadas.
Para o Exército, Fernandinho é o elo entre as Farc e o narcotráfico. A prova de que a ofensiva contra o narcotráfico, apoiada e financiada pelos Estados Unidos no âmbito do Plano Colômbia, passa pela reconquista dos bastiões da guerrilha. Desmantelar a ‘‘conexão brasileira’’ no Guaviare, para os militares, é fechar um dos principais corredores por onde entram armas para os novos contingentes recrutados pelas Farc desde 98, quando se estabeleceu no Sul do País uma zona desmilitarizada para negociações de paz com o governo. Há um ano, os efetivos das Farc eram estimados em 12 a 15 mil combatentes; hoje, a inteligência militar cita 21 mil.

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