Traficante ganhou notoriedade durante gravação de clipe de Michel Jackson no Morro Dona Marta
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de fevereiro de 2000
Por Sílvio Barsetti* 
Rio, 28 (AE) - O traficante Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP, ganhou notoriedade numa madrugada de fevereiro de 1996 quando concedeu uma entrevista no alto do Morro Dona Marta, na zona sul da cidade, para anunciar que seus soldados seriam os responsáveis pela segurança do cantor Michael Jackson, na gravação do clipe "They dont care about us", que aconteceria horas depois, numa casa alugada pela produção de Jackson.
Naquela noite, o tráfico impediu a circulação de policiais militares em algumas áreas do morro. Alguns repórteres instalaram-se na favela em busca de informações ou imagem privilegiada da gravação do clipe. Mas foram expulsos no início da madrugada por ordem de Marcinho VP, atendendo a um pedido da produção do cantor. Ainda no alto do morro, no entanto, cruzaram com mais de 40 soldados do tráfico - eles endolavam cocaína - e com o próprio Marcinho VP, que voltou atrás e permitiu a permanência de três jornalistas. "Só desce quem está com máquina fotográfica", determinou.
Em seguida, muito solícito, resolveu conceder uma entrevista. Ordenou a outros dois traficantes que levassem os repórteres a uma laje, no topo do morro, de onde se podia ver toda a Baía de Guanabara. Marcinho VP exigiu que seu nome não fosse publicado nas edições dos jornais e fez uma ameaça aos repórteres. "Se não cumprirem o acordo, mando buscar vocês". Na conversa, vigiada por soldados aramados com fuzis e metralhadoras, ele revelou sua preocupação com os mais pobres.
"É preciso uma revolução social para o Brasil melhorar", disse. "A sociedade inteligente não pode ficar em silêncio". Marcinho VP parecia bem articulado e disposto a mostrar que o tráfico de drogas era o único caminho viável para que as camadas mais humildes pudessem arrecadar dinheiro a fim de preparar a tal "revolução social". Ele negou que consumisse cocaína ou maconha, e, num ato de intimidação, disse que seu vício era "matar".
O traficante seria preso em menos de uma semana depois, após cerco ao morro, numa determinação do então governador Marcello Alencar ao Comando da PM do Estado. Meses depois ele fugiu da cadeia e permanece foragido até hoje. (Sílvio Barsetti participou da entrevista a Marcinho VP)


