Rio, 24 (AE) - O traficante Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP, preso hoje, ganhou fama em fevereiro de 1996, quando anunciou à imprensa que autorizava o cantor Michael Jackson e o diretor Spike Lee, ambos norte-americanos, a gravar um videoclip na favela Santa Marta, no Rio. Na época, aos 25 anos, ele dominava o tráfico no morro, situado em Botafogo, na zona sul - um dos pontos de drogas mais disputados da cidade. Marcinho VP nasceu e cresceu no morro, onde sua família viveu até 1987, sem outras pessoas envolvidas com o tráfico.
Apesar dos protestos do então chefe da Polícia Civil, o hoje deputado estadual Hélio Luz (PT), o clip foi rodado com a "proteção" de 40 homens ligados ao traficante, que já então era foragido da Justiça e condenado a 40 anos de prisão em dois processos, além de responder a outros por assassinato. No dia da gravação, ele mandou expulsar os jornalistas do morro, mas voltou atrás e deu uma entrevista coletiva afirmando que não se drogava.
"Meu vício é matar", disse VP. Em dezembro de 1998, ele foi expulso do morro pelo traficante Zacarias Rosa Neto, o Zaca, e não foi mais visto em Botafogo, apesar de rumores constantes de que teria contatos com políticos fluminenses e de tentativas armadas de retomar o domínio da favela.
O nome de Marcinho VP voltou à baila fevereiro deste ano
quando o documentarista João Moreira Salles (filho do banqueiro Walter Moreira Salles) disse ao Jornal Nacional, na TV Globo, que mantinha contato com o traficante, a quem havia conhecido três anos antes, quando rodou o documentário "Notícias de uma Guerra Particular", sobre a violência carioca do ponto de vista dos criminosos.
O mesmo noticiário exibiu imagens do bandido na Argentina, onde ele receberia uma mesada de R$ 1,2 mil, paga por Salles. VP dizia ter uma função social e defendia a criação de um movimento, a que chamava de "favelania". No dia seguinte, o documentarista confirmou ter dado a mesada ao traficante por um período que não sabia afirmar se era de quatro ou oito meses, para ajudá-lo a se recuperar e em troca de um livro que nunca chegou a ser escrito. Salles contou ainda que o traficante manifestara o sonho de conhecer o comandante Marco, do Movimento Zapatista do México.
A notícia provocou uma crise no setor de segurança do Estado do RJ. O coordenador da área, Luiz Eduardo Soares, defendeu o cineasta, que o havia procurado em dezembro e informou que indicara a "divulgação do relacionamento entre os dois, para evitar que policiais mal intencionados se aproveitassem da situação".
O governador Anthony Garotinho e o secretário estadual de Segurança, coronel Josias Quintal, censuraram publicamente Soares. Ele acabou exonerado em março, quando denunciou a existência de uma banda podre na polícia fluminense. Dias depois
deixou o País com a família porque recebeu ameaças de morte. VP continuava foragido e havia indícios de que estaria no Estado do Rio.
O atual chefe da Polícia Civil, Rafik Louzada, prometeu prendê-lo até o dia 1º de abril, sem sucesso. Um inquérito policial foi aberto para apurar as responsabilidades de João Moreira Salles, que foi indiciado no dia 7 de abril, após prestar depoimento. A prisão do traficante, no entanto, só aconteceu hoje. Segundo a assessoria da Videofilmes, empresa de João Moreira Salles, ele passou o dia hoje incomunicável, gravando um documentário.

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