Belo Horizonte, 03 (AE) - Um homem que se identificou como Luís Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, prestou depoimento hoje, por telefone, à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga o narcotráfico em Minas Gerais. O traficante mais procurado do País havia prometido revelar nomes que comandam o tráfico no Estado, mas, durante as mais de duas horas de conversa, pouco acrescentou ao que já era de conhecimento público.
"Ele disse muito menos do que sabe", avaliou o relator da CPI, deputado Rogério Correia (PT). O traficante deixou claro que só está disposto a colaborar se os integrantes da comissão se comprometerem a ajudá-lo no reabertura do processo que o condenou a 12 anos de prisão, em 1996. Disse que só falaria sobre Minas e recusou-se a fornecer informações sobre o narcotráfico no resto do País.
Representes da Polícia Federal e do Ministério Público, além do ex-advogado do traficante, Adalberto Lustrosa, foram convidados a acompanhar o depoimento para fazer o reconhecimento da voz. "Não tenho a menor dúvida de que é ele", afirmou Lustrosa.
A sessão foi dividida em duas partes, uma aberta à imprensa e outra secreta, com a presença dos deputados e dos convidados. O delegado da PF, Cláudio Dornelas, informou que havia equipamentos instados para fazer a perícia, mas não para rastrear a ligação. O traficante usava um celular de transmissão via satélite.
De acordo com os membros da CPI mineira, para conseguir fazer o rastreamento seria preciso uma intermediação diplomática com a Embaixada dos Estados. A empresa responsável pela habitação deste tipo de telefone móvel, que tem sede em Washington, teria de autorizar a quebra do sigilo telefônico de seu cliente.
Durante o depoimento, Beira-Mar insistiu na versão de que sua prisão em Belo Horizonte, em junho de 1996, foi forjada. Ele acusou o agente federal Celso Figueiró, que o prendeu, de ter colocado quatro quilos de cocaína dentro de seu apartamento na zona sul da capital mineira. O traficante carioca quer a revisão criminal do processo para provar que a droga foi colocada em sua casa para armar o flagrante.
"Não vendi nenhuma grama de cocaína em Belo Horizonte", afirmou. "Tenho ódio desse Figueiró." Segundo ele, decidiu mudar para Minas para viver com tranquilidade o que não era mais possível no Rio. A revisão do processo em Minas, onde a pena é menor do que a arbitrada pela Justiça do Rio (de 21 anos), interessa a Beira-Mar especialmente porque seus bens estão sob custódia da Justiça mineira. A estimativa é de que os imóveis que estão em nome de "laranjas" valham cerca de r$ 5 milhões.
Além de acusar o agente federal Figueiró de ter forjado o flagrante, Beira-Mar denunciou um ex-sócio, Wesley Silva, de envolvimento com o narcotráfico e lavagem de dinheiro em bingos. Além de dono de um bingo, Silva é dono de um cartório em Betim. De acordo com o traficante carioca, ele pagou a Figueiró para se livrar do processo.
Ele acusou ainda o ex-diretor do Departamento de Operações Especiais de Minas Gerais (Deoesp-MG), João Reis, de práticas de tortura. O traficante, no entanto, inocentou Reis de corrupção para facilitar sua fuga do departamento, em março de 1997.
Na avaliação do promotor da Vara Especializada em Tóxicos, André Ubaldino, o depoimento de hoje não acrescentou nenhuma novidade. Segundo ele, será difícil o traficante conseguir o que realmente quer - a revisão criminal - porque para isso seria preciso apresentação de uma prova nova. Ubaldino foi promotor do processo que condenou Beira-Mar, em Belo Horizonte.