Traficante diz poder reconhecer policiais envolvidos com crime
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 12 de janeiro de 2000
Por Hugo Marques 
Brasília, 12 (AE) - O traficante Aryzolin Trindade Sobrinho, uma das principais testemunhas da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico, disse hoje que pode reconhecer vários policiais federais e civis envolvidos com o tráfico de drogas no País, até mesmo do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) de São Paulo.
O criminoso, que está sob custódia da Polícia Federal em Brasília, prometeu ajudar os parlamentares da CPI a identificar esses policiais. Em entrevista ao Grupo Estado, Aryzolin citou vários casos em que sua colaboração seria útil à CPI. Ele disse ser capaz de apontar, por exemplo, três policiais federais de Santa Catarina que participam da venda de cocaína. Segundo ele, outro policial federal, um agente atualmente lotado na Bahia, também ajudou a fazer grandes carregamentos de drogas.
"Lembro-me que ele usava o codinome Bessa", afirmou. O traficante revelou que os policiais, para dificultar sua identificação, usam nomes falsos no contato com bandidos.
Aryzolin disse que já tinha entregue à CPI os nomes de alguns policiais civis. De acordo com o criminoso, vários deles são do Denarc, que teria enviado a Brasília, recentemente, cinco homens para que ele tentasse reconhecê-los. "Mas eles trouxeram só caras desconhecidos, para não haver reconhecimento", informou. Aryzolin disse que um dos agentes do Denarc envolvidos com o tráfico usava o codinome Robson. Outro apresentava-se como Abdiel.
A testemunha afirmou que sempre teve ajuda de policiais do Denarc. "Há vários policiais que ficaram ricos com a droga", afirmou. "Gente que tem fazenda e é muito rica." O traficante contou que viajava para São Paulo de avião e que "os policiais do Denarc sempre davam cobertura na cidade". Ele lembrou ter a ido a boates em companhia de policiais civis.
Aryzolin forneceu alguns codinomes de traficantes ligados aos esquemas dos policiais. Segundo ele, o agente Bessa, da Bahia, tem um parente conhecido como Duprat que traz cocaína da Bolívia para o Brasil. O traficante disse que um ex-delegado da PF, um certo Zé Carlos, também está envolvido com o tráfico de drogas. Esse delegado, disse o traficante, seria ligado ao traficante Pelé, um policial civil que traria cocaína da Bolívia para Rio Verde, em Goiás. Zé Carlos e os três policiais de Santa Catarina, segundo a testemunha, estão ligados a Fernandinho Beira-Mar, traficante do Rio que está foragido. O grupo despachava droga para o exterior pelo porto de Itajaí (SC).
O traficante também citou como envolvido com o transporte de drogas um policial de Campinas conhecido como Osmar que, segundo ele, traria cocaína da Bolívia dentro de troncos de madeira. Aryzolin disse tratar-se do mesmo Osmar que aparece em uma lista de pagamentos que a CPI encontrou em disquete do advogado Arthur Eugênio Mathias, de Campinas (SP), ligado ao traficante Willian Sozza.
Cemitério - Segundo a testemunha, existe um cemitério onde estariam sepultados 30 cadáveres, às margens do Rio Paraguai, próximo a Corumbá (MS), onde os policiais jogavam os corpos de traficantes que extorquiam. Aryzolin também vai entregar à CPI o nome de outros traficantes do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul. Segundo ele, um homem conhecido por Jurandir, que tem um bar "de fachada" em Campo Grande, seria um dos traficantes que mais enviam crack para São Paulo. Aryzolin disse que também pode reconhecer outro delegado da Polícia Civil de Campo Grande que também estaria envolvido com o tráfico.
Distribuição - Aryzolin disse ser capaz de explicar como funciona o esquema de distribuição de drogas por Brodowsky (SP) e por Frutal (MG). Segundo ele, os traficantes trazem a droga da Bolívia e da Colômbia e a jogam de avião, no meio de grandes plantações de abacaxi. Posteriormente, a droga é distribuída em grandes centros urbanos, de caminhão.
Dois dos traficantes, apelidados de Camisola e Gordo, trazem a droga do exterior para São Paulo, de acordo com Aryzolin. Na divisa do Brasil com o Paraguai, Aryzolin disse que um homem conhecido como João Morel controla todo o tráfico de drogas. "Morel mora na Vila Juqui (Paraguai) e ninguém entra lá sem a autorização dele."
Aryzolin é casado, tem 38 anos e trafica há cerca de dez anos. Ele era piloto de barco em Corumbá e entrou no crime organizado depois de se desentender com um suposto turista que utilizava sua lancha para traficar. Ele disse ter perseguido o traficante, mas acabou conhecendo outras pessoas que o convenceram também a traficar. "Eu nunca carreguei droga diretamente", afirmou. "Só fechava os negócios."


