Rio de Janeiro, 30 (AE) - Em depoimento reservado hoje à CPI do Narcotráfico, o traficante Wilson Carlos Weirich detalhou todo o esquema de entrada de drogas e armas no País e como é feita sua distribuição.
Segundo ele, a droga vinha da Colômbia, da Bolívia e do Paraguai e, a partir de Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, é distribuída para todo o País. As armas, segundo ele, entram no País de navio, vindas de Miami, nos Estados Unidos, e seguem para o Paraguai, de onde são distribuídas pela polícia paraguaia.
Weirich era dono de uma empresa transportadora usada por Beira-Mar e João Morel, acusado por ele de também ser traficante
para levar a droga para outros estados.
Ele foi preso em fevereiro deste ano, em Maricá, na Região dos Lagos, e, embora na ocasião tenha fornecido à polícia detalhes do esquema de transporte de droga, foi libertado.
O episódio detonou a crise na polícia do Rio, que culminou com a demissão do coordenador de Segurança, Luiz Eduardo Soares. Atualmente, Weirich está preso.
"A cocaína e a maconha iam no fundo falso dos caminhões", explicou o deputado Padre Roque (PT-PR), que acompanhou o depoimento. Segundo os deputados, a testemunha contou ainda que o tráfico de armas era feito de forma semelhante.
"As armas vêm de Miami, de navio, e desembarcam nos portos de Santos (SP) ou Paranaguá (PR)", contou o deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS). "Os contêineres seguem direto para o Paraguai onde são abertos pela Polícia Nacional do Paraguai que revende as armas para Brasil e Colômbia."
Em seu depoimento, que durou mais de três horas, Weirich acusou ainda policiais do Rio e de São Paulo de participação no tráfico de drogas e extorsão. "Ele contou que tentaram extorqui-lo na delegacia de Maricá, quando foi preso", revelou Padre Roque.
O deputado Celso Russomano (PPB-SP) revelou que a CPI está investigando uma denúncia, segundo a qual há um grupo de policiais cariocas especializados em extorquir taxistas que trabalham para o tráfico de drogas.
"Os policiais esperam os táxis chegarem nas favelas para pegar a droga e achacam os motoristas", contou Russomano. "Mas nunca vão na favela, onde está a droga."
Depoimentos - A segunda pessoa a prestar depoimento hoje à CPI do Narcotráfico foi o ex-sub-chefe da Polícia Civil, Bismark Santana, que pediu exoneração do cargo na última segunda-feira.
Santana negou que tivesse conhecimento das atividades da chamada banda podre da polícia e das denúncias feitas pelo ex-coordenador de Segurança Luiz Eduardo Soares. Na avaliação dos deputados, o depoimento de Santana pouco acrescentou às investigações.
O chefe da Polícia Civil do Rio, Rafik Louzada, alvo de denúncias de corrupção feitas por Luiz Eduardo Soares, também prestou depoimento ontem à CPI. Louzada acabou discutindo com o deputado Moroni Torgan (PFL-CE), relator da comissão.
"Quem ouve o seu depoimento tem a impressão de que não há problemas na polícia", afirmou Torgan. "Se o senhor quer me acusar, então me acuse", devolveu Louzada, na única ocasião em que se alterou.
Em seu depoimento, o chefe de Polícia defendeu o policial José Carlos Guimarães, que era lotado em seu gabinete e foi afastado na semana passada por suspeita de corrupção. "Tenho certeza de que ele é um homem de bem", afirmou. Ele autorizou a CPI a pedir a quebra de seu sigilo bancário, fiscal e telefônico.
Em entrevista, concedida depois do depoimento, Louzada afirmou que pretende entrar na Justiça contra Luiz Eduardo Soares.
Homem de confiança do delegado Marcos Reimão, afastado da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), José Luiz Magalhães também prestou depoimento ontem. Ele negou as acusações de extorsão, mas, na avaliação dos parlamentares, acabou caindo em contradição ao falar de seu relacionamento com os policiais Carlos Coelho Macedo e Alexandre Campos Faria - acusados de extorquir Beira-Mar.
Ao falar de um encontro que teve com os dois na carceragem Ponto Zero, Magalhães disse que a conversa fora "amena". Em uma fita gravada por Beira-Mar e entregue à CPI, no entanto, Faria acusa Magalhães de envolvimento em esquemas de extorsão. Por conta disso, Magalhães não foi dispensado, ficando à disposição dos parlamentares.
O secretário de Segurança, Josias Quintal, passou a tarde de ontem na Firjan acompanhando os depoimentos. Estava previsto para ontem também os depoimentos do deputado estadual mineiro Arlen Santiago e de seu irmão, o empresário Paulo César da Mota Santiago, acusados de envolvimento no esquema de Beira-Mar.
Até as 21h30 os interrogatórios não haviam começado. Críticas - O deputado Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ) criticou ontem o governador Anthony Garotinho por ter entregado à CPI, na quarta-feira, seis mil laudas de documentos sobre o tráfico de drogas. "Quem vai examinar aquilo tudo a essa altura?", questionou. "Queríamos algo mais concreto: como as drogas e as armas entram no estado e como é feita a lavagem de dinheiro."
Os demais integrantes da CPI não concordaram com as críticas de Biscaia. "Acho que há uma grande disposição do governador de nos ajudar", disse Pompeo de Mattos (PDT-RJ). Por conta das diferenças, Biscaia acabou discutindo em plenário com outros deputados.

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