Recife, 04 (AE) - O traficante Manoel Soares de Freitas, conhecido como Falcon, acusou hoje, no Recife, em depoimento à CPI do Narcotráfico, o deputado estadual Eudo Magalhães (PFL) e seu irmão, o ex-deputado estadual e ex-assessor do governador Jarbas Vasconcelos (PMDB) Enoelino Magalhães, por crimes de pistolagem e de integrarem grupo de extermínio.
Falcon não os acusou diretamente por envolvimento no narcotráfico, mas afirmou que o deputado poderia ter conexão com as drogas por intermédio de seu meio-irmão, Marcôntio Araújo, conhecido como "Pezão".
Vestígios de maconha foram encontrados na casa onde Marcôntio foi preso durante um desmanche de carro, em Garanhuns, no agreste, e 40 gramas de cocaína foram achados em sua casa. Pezão também já foi indiciado pelo sequestro de uma menor, filha de um empresário de Garanhuns.
De acordo com Falcon, uma casa que lhe pertencia, em Olinda, lhe foi "tomada" por Eudo Magalhães, que a entregou a Pezão, que abriu uma loja de autopeças no local. A CPI confirmou a existência da loja.
Falcon disse ter dado uma procuração para o deputado, no primeiro semestre de 1994, para que ele vendesse a casa, sem ter recebido nenhum tostão pela transação.
Falcon tem 50 anos, é ex-policial e está preso há seis anos na Penitenciária Barreto Campelo, condenado a 19 anos de prisão por tráfico de droga. Ele disse que era amigo do deputado Eudo Magalhães há cerca de 25 anos, a quem acusou, e ao ex-deputado Enoelino, de estarem por trás da morte, em 1995, do ex-prefeito de São José da Coroa Grande, na zona da mata sul, Lívio Tenório.
Ele contou ter recebido, do deputado, duas propostas (que disse não ter aceitado) para matar duas pessoas por motivação política e responsabilizou o parlamentar por um suposto estupro sofrido por sua ex-mulher. E disse que o deputado o visitou várias vezes na prisão e uma vez tentou matá-lo, enviando uma pizza e peras envenenadas à penitenciária.
O deputado Eudo Magalhães depôs à CPI hoje à noite e considerou as denúncias infundadas. Para ele, as acusações foram feitas com o intuito de atenuar a sua pena e adiantou que vai entrar com processo de calúnia e difamação contra o traficante.
Magalhães disse que Falcon era de família de correligionários políticos e "tido como pessoa direita" até 1994, quando foi preso por envolvimento de droga.
Ele confirmou ter passado a casa de Falcon a seu meio-irmão Pezão, mas disse que o valor da venda, R$ 25 mil, foi entregue ao advogado Carlos Gil Rodrigues, que libertou Falcon depois da sua primeira prisão, em 1994. Em outubro, Falcon foi preso pela segunda vez e condenado.
A CPI teve a informação, do advogado Rodrigues, de que ela teria realmente recebido esse dinheiro, numa transação que, de acordo com ele, não teve recibo nem declaração no Imposto de Renda.
O relator da CPI, deputado Torgan Moroni (PFL-CE) afirmou que Carlos Gil Rodrigues poderá responder por crime de sonegação e vai requisitar processo e a sentença de Falcon para ver que tipo de argumento jurídico foi aceito para soltar um acusado de crime hediondo, no caso narcotráfico. Falcon foi preso de posse de 12 quilos de maconha e US$ 8 mil.
O presidente da CPI, deputado Magno Malta (PTB-ES) considerou as denúncias muito graves, mesmo que não contundentes em relação ao narcotráfico. Elas serão encaminhadas ao Ministério Público. A CPI, que fica em Pernambuco até a sexta-feira, vai convocar o advogado Carlos Gil Rodrigues e Marcônio Araújo para depor.
A CPI ainda iria ouvir, ontem à noite, três presidiários. Welington Joaquim de Souza, que foi preso pela Polícia Federal, no ano passado, por ter saído do presídio Aníbal Bruno, depois de uma visita, com 200 gramas de cocaína; Alberto Jorge de Souza
suspeito de ter ligação com o narcotráfico da região Norte; e Simone Maranguape, presa no Aeroporto dos Guararapes, quando tentava embarcar para a Costa do Marfim com cocaína escondida na roupa íntima.
Pela manhã, foi ouvido o diretor do Presídio Aníbal Bruno, major Evandro Carvalho. Os integrantes da CPI questionaram fugas ocorridas - especialmente a do traficante colombiano Héctor Alírio Sanches - e a suspeita de o local ter se transformado em ponto de venda de droga.
Carvalho confirmou a suspeita de a fuga do colombiano ter sido facilitada por policiais da guarda e admitiu a existência de problema de drogas no presídio. Afirmou ser muito difícil fazer um controle já que o presídio tem 2.800 presos quando a capacidade é de 524. Num dia de domingo, exemplificou ele, o presídio chega a receber 4 mil visitantes, abrigando quase 7 mil pessoas. O diretor disse que para uma grande operação de varredura dentro do Aníbal Bruno, que tem 12 pavilhões, seriam necessários pelo menos 500 policiais.
Amanhã, os integrantes da Comissão estarão em Salgueiro, a 525 quilômetros do Recife, município que integra o chamado polígono da maconha, no sertão.

mockup