Traficante confirma Campinas como centro de distribuição de drogas
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sexta-feira, 19 de novembro de 1999
Por Edson Luiz (enviado especial) 
Campinas, SP, 19 (AE) - A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico confirmou hoje, depois de ouvir o traficante Aryzoli Trindade Sobrinho, que Campinas é um dos principais entrepostos de distribuição de drogas do País, esquema comandado pelo empresário William Sozza. Sobrinho disse à CPI ter feito a intermediação para a venda de 120 quilos de cocaína a Sozza e que assistiu à chegada de outros 100 quilos em uma fazenda do empresário, droga que foi transportada para o Rio de Janeiro. A testemunha contou que Sozza está foragido em Capitão Bado, no Paraguai, com Fernandinho Beira-Mar.
Os deputados da CPI estão considerando o depoimento de Aryzoli Sobrinho tão importante quanto o do caminhoneiro Jorge Meres, que denunciou o esquema de roubo de cargas e caminhões envolvendo Sozza e o ex-deputado José Gerardo, do Maranhão. "Ele mostrou fatos consistentes que relacionam Sozza com o narcotráfico", afirmou o presidente da CPI, Magno Malta (PTB-ES). A testemunha contou que o advogado Artur Eugênio Mathias, que defendia Sozza, e que foi preso pela CPI na quarta-feira, também sabia das transações do empresário, pois teria participado das negociações de compra de cocaína no Rio Grande do Sul.
"Ele me foi apresentado pelo Sozza como advogado Mauro, que tira qualquer um da cadeia em menos de 24 horas", afirmou Sobrinho. "Comigo estava o colombiano Rico Hermandes e um piloto que acompanhou o empresário e o advogado." Segundo contou o traficante, Sozza e Mathias foram de Porto Alegre para o município de Viamão, onde negociaram a compra da droga diretamente com o colombiano. "Eles negociavam no hotel longe de qualquer coisa para não despertar suspeitas."
A droga, segundo Sobrinho, foi paga com três carretas roubadas e uma quantidade de dólares que foi entregue em Corumbá a um doleiro conhecido por Jair. "Eu levei o dinheiro em uma picape Saveiro com o fundo falso", afirmou o traficante. "O fundo todo estava forrado com dólares e cada quilo da droga custou em torno de R$ 3 mil." O traficante ainda revelou que a cocaína saía por avião do Paraguai, para onde era levada da Colômbia e chegava ao Brasil por Campinas.
Segundo o traficante, Sozza também estava presente em uma fazenda próxima de Campinas, onde recebeu mais de 100 quilos de cocaína proveniente do Paraguai. "Eu fiquei na porteira e um avião jogou a droga, que estava em uma caixa forrada com cobertores", contou Sobrinho. Ele afirmou que ficou na porteira enquanto Sozza recebia a droga e depois a levou para Vigário Geral e morro do Turano, no Rio de Janeiro, em uma Kombi escoltada por empregados do empresário. "A escolta era com pessoal dele com ajuda de algum policial."
Outro contato entre Sozza e o traficante, segundo ele revelou à CPI, foi em Santa Bárbara D´Oeste. O encontro aconteceu em uma praça, onde o empresário apresentou duas pessoas - uma conhecida por João e outra dono de uma lanchonete - que queriam comprar cocaína. "Foram acertados cerca de 100 quilos", disse Sobrinho. "Esse João foi preso em Curitiba e o advogado Mauro (referindo-se a Artur Mathias, com quem estava frente à frente) o tirou da cadeia em 24 horas e acertou sua transferência para Sorocaba". O último contato entre os dois aconteceu em dezembro do ano passado.
Para o traficante, William Sozza não seria o principal líder da organização. Segundo ele, o advogado Mathias poderia ser o principal responsável pelo roubo de cargas e tráfico de drogas. "Tem mais alguém acima", disse. "Ele nunca resolvia um negócio de compra de cocaína de imediato, ele sempre esperava alguém."
Há oito dias, conforme Sobrinho, William Sozza estava em Capitão Bado, no Paraguai, em uma fortaleza pertencente ao traficante brasileiro conhecido como Silva e onde também estava Fernandinho Beira-Mar, foragido da justiça do Rio, e outro traficante conhecido por Pitoco, também brasileiro. "Quem me contou foi Toninho, um traficante do Rio de Janeiro", afirmou. "Mas a fortaleza está cercada por mais de 20 homens fortemente armados."
Sobrinho disse, ainda, que os traficantes brasileiros no Paraguai possuem outros dois locais onde se refugiam quando há sinais de perigo. Um deles é a chácara de um paraguaio chamado Rios, principal comprador de couro de jacarés contrabandeados do Brasil, e o outro seria uma fazenda pertencente a Pitoco, localizada ao lado da fazenda do presidente do país. "De lá eles (Sozza e Fernandinho) ainda comandam o tráfico em suas áreas".
Sobrinho revelou à CPI ter deixado a organização depois que denunciou um de seus integrantes, que pretendia roubar uma carreta e matar o motorista, em Brusque (SC). "Eu fui contra, meu negócio é vender cocaína", disse. "Mas eles matam direto, isso é normal."
Segundo o traficante, o empregado de Sozza, conhecido como Paulão, ainda insistiu em matar o motorista e, para evitar que isso acontecesse, chamou policiais do gripo anti-sequestro e denunciou o companheiro. A partir daí, fugiu para Guayara-Merin, na divisa de Rondônia com a Bolívia, onde ficou até quinta-feira.


