Tradutor de Stalin temia ser o próximo a sumir
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sexta-feira, 07 de abril de 2000
Por Francisco Campera, especial para a AE 
Moscou, 08 (AE) - Há ainda na Rússia quem sinta saudade do ex-líder da extinta União Soviética, o georgiano Josef Stalin. A saudade é mais do homem do que das ações do velho ditador. Ex-intérprete do antigo líder para a língua francesa - o idioma universal na época -, Vladimir Ivanovitch Erofeiev, de 81 anos, conta como foi a sua convivência com o dirigente que tanto atemorizou os russos e o mundo.
Erofeiev trabalhou como tradutor para o líder de 1944 até 1953 - Stalin governou o país de 1924 até sua morte, em 1953. Apesar de sentir admiração por Stalin, o intérprete tinha medo dele porque sabia que costumava matar auxiliares que sabiam demais.
Ele fascinava Erofeiev pela forma como conduzia as conversas com os interlocutores. "Nunca usava documentos ou teses preparadas sobre o que ia falar. Era tudo de improviso." E tinha excelente memória. "Era incrível como se lembrava de números sobre o governo que eram difíceis de memorizar."
O tradutor conta como era a estratégia de convencimento de Stalin. "Ele dominava perfeitamente a arte da persuasão. No início era muito amável e hospitaleiro, deixava a pessoa falar à vontade e ouvia com paciência. Depois, sempre conduzia a conversa na defesa de seus objetivos políticos e do socialismo."
Erofeiev tinha ainda a obrigação de anotar os detalhes das conversas e entregar o material a Stalin.
Stalin costumava acordar de madrugada e mandar chamar todos os auxiliares. Certa vez, o intérprete correu tanto pelo Kremlin para atendê-lo que caiu e se machucou. "Quando Stalin me viu sangrando, parou de trabalhar para ver o ferimento e mandou chamar um médico. Ele era assim, surpreendente, fazia coisas que ninguém esperaria."
Erofeiev explica que todas as traduções eram mantidas em absoluto sigilo. "Era uma época em que uma palavra a mais podia custar a vida." Ele conta que todos os membros do governo temiam o líder. "Alguns chegavam a tremer e suar quando chegavam perto dele."
Hoje, Erofeiev fala com tranquilidade de algo que já se tornou de conhecimento público: os integrantes do antigo Politburo (órgão dirigente máximo do regime) sumiam um atrás do outro, com toda a família. "Na época poucos, como eu, sabiam disso, mas não falávamos uma palavra. Nem mesmo em casa, tamanho era o medo que tínhamos."
Para o tradutor, Stalin era um ótimo psicólogo. "Parecia que ele lia os pensamentos. Adivinhava quem tentava esconder alguma informação dele. Por isso, exigia respostas rápidas e exatas, sem hesitação. Era difícil enganá-lo. Ele conhecia a alma humana
ou talvez a arte de enganar."
Apesar do medo, Erofeiev acreditava que o caso dele era diferente do dos outros. "Eu era um técnico aos olhos de Stalin. Bastava cumprir direito o meu papel, ficar calado e não ter contato com pessoas suspeitas." Para o intérprete, a maior preocupação de Stalin era com os membros mais poderosos do governo. Mesmo assim, Erofeiev não vacilava.
A maior preocupação de Erofeiev era traduzir certo. Ele relata que o funcionário que o antecedeu na função fora demitido porque não soube captar detalhes técnicos de uma conversa sobre mecânica de aviões. Ele se encontrou na mesma situação quando foi traduzir uma discussão sobre aves. Só não foi demitido porque era uma conversa informal.
A primeira vez que Erofeiev viu Stalin se assustou. "Não tinha nada a ver com a imagem grandiosa que eu fazia dele." Era baixinho e sua aparência não transmitia boa impressão. Segundo Erofeiev, Stalin falava mal a língua russa, porque era da Geórgia. "A sorte dele era que na época não existia tevê."
A força do ditador, para o tradutor, estava em sua personalidade. "Ele possuía uma energia que influenciava magicamente as pessoas." E recorda-se de que sua antiga chefe falava de Stalin de uma forma hipnótica. "Só quando o conheci pessoalmente vi que ela tinha toda a razão."
Outra atribuição de Erofeiev era traduzir filmes. Stalin adorava cinema e, frequentemente, chamava amigos para assistir a projeções com ele. "Era difícil ficar junto dele porque gostava que todos rissem quando ele achava algo engraçado."
Na opinião de Erofeiev, no início da 2ª Guerra Mundial Stalin admirava Hitler cegamente e não queria acreditar que ele tinha a intenção de atacar a URSS. Erofeiev diz não ter dúvidas de que Winston Churchill (primeiro-ministro britânico durante a guerra de 1951 a 1955) gostava muito de Stalin e o relacionamento entre os dois era "extremamente" cordial. Ele lembra que no aniversário do quinto ano da morte de Stalin, Churchill fez um discurso emocionado no Parlamento britânico. "Disse que ele foi o mais brilhante e poderoso chefe de todos os tempos. Acho que talvez tenha sido hipnotizado também", ironiza.
Do ex-presidente americano Franklin Roosevelt (governou de 1933 a 1945) disse que trocavam telegramas diariamente. E lembra do dia que Stalin recebeu a notícia da morte de Roosevelt: "Só sei que ficou muito sentido."


