Tradução permitiu uso de pessoas como cobaias
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2005
Talita Figueiredo<br>Folhapress 
Rio- Uma tradução incompleta de um projeto de pesquisa permitiu que pessoas fossem usadas em experimentos de uma pesquisa sobre malária no Amapá, em junho de 2003. Doze moradores de São Raimundo do Pirativa foram submetidos a picadas de mosquitos transmissores da doença nos primeiros dias da pesquisa, procedimento ilegal no país.
A pesquisa ''Heterogeneidade de Vetores e Malária no Brasil'' foi financiada em US$ 1 milhão pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos e tem a parceria da Fiocruz, Universidade de São Paulo (USP) e Universidade da Flórida.
A pesquisadora Mércia Arruda, da Fiocruz, afirmou ontem que o holandês Jaco Voorham, na época professor-adjunto visitante da USP, suprimiu da tradução do projeto do inglês para o português, a frase que dizia que mosquitos ''serão alimentados com sangue dos voluntários''.
No entanto, no termo de compromisso assinado pelos voluntários, também traduzido por ele, estava escrito que o participante ''será solicitado como voluntário para alimentar cem mosquitos no seu braço ou na sua perna para estudos de marcação-recaptura. Isto ocorrerá duas vezes ao ano''.
Dias depois do início do trabalho em campo, segundo a pesquisadora da Fiocruz, representantes da USP alertados sobre os experimentos determinaram a suspensão imediata do procedimento. Quem coordenava o trabalho era o americano Robert Zimmerman, ligado à Universidade da Flórida. Nos Estados Unidos o experimento é permitido.
A pesquisa contratou 12 moradores da região e os treinou para capturar mosquitos, nove dias por mês. Eles recebem R$ 20 por dia de trabalho. O projeto começou em junho de 2003 e tem prazo para terminar em abril do ano que vem. Depois da denúncia do Ministério Público Estadual do Amapá de que os voluntários eram usados como cobaias humanas, o Ministério da Saúde suspendeu a pesquisa.
De acordo com o coordenador de cursos em Biosegurança da Fiocruz, Sílvio Vale, há precedentes no Conep (Conselho Nacional de Ética em Pesquisa), ligado ao Ministério da Saúde, que proíbem ''qualquer experimento que coloque em risco o sujeito da pesquisa''. Além disso, por lei não se pode pagar a alguém para que seja objeto de um experimento e eles estão recebendo R$ 20 por dia de trabalho.
Além dos 12 ribeirinhos, também participam da coleta quatro agentes da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) e o pesquisador Allan Kardec Galardo. Em 2003, 13 coletores pegaram malária.
Até as 18h30 de ontem, a USP não havia respondido às ligações da reportagem para esclarecer se abrirá procedimento para saber se houve má-fé do professor holandês responsável pela tradução. Voorham voltou para a Holanda meses depois do início dos trabalhos e não foi localizado ontem.


