Mantido por freiras, o Centro de Educação Infantil Paula de Rosa é o ‘‘mar da tranquilidade’’ de Florestópolis, uma cidade com muitos transeuntes circulando pelas ruas largas, quase sempre ignorando as calçadas esburacadas, atrapalhando o tráfego incipiente e cumprimentando quem passa, até mesmo o mais desconhecido dos forasteiros. Nos pátios vazios devido às férias escolares, o silêncio na escola só não é absoluto por causa da faxina das serventes.
Este cenário bucólico esconde em sua história os primeiros e mais comoventes capítulos de um dos mais importantes trabalhos sociais já implementados no Brasil moderno. No início da década de 80, os pacatos cidadãos da cidade que passavam em frente ao Colégio das Irmãs (como é mais conhecida a escola infantil) observava a aglomeração de mães aflitas no portão e ouvia o choro coletivo dos bebês, que às vezes vacilavam por fraqueza ou alívio.
O Colégio das Irmãs era o quartel-general da Pastoral da Criança, instalada em setembro de 1983 na cidade, e que inspirou o projeto que se expandiu para todo o Brasil, países da América Latina e da África. De tão bem-sucedido, pode dar o primeiro Prêmio Nobel da Paz ao Brasil. A coordenadora nacional da pastoral, Zilda Arns, foi indicada pelo governo brasileiro para concorrer a honraria, que pode render aproximadamente US$ 1 milhão ao vencedor.
Caracterizado pelas visitas casa a casa, o trabalho voluntário da pastoral tinha no colégio uma espécie de pronto-socorro infantil, atendendo aos casos mais críticos de desnutrição, que condenava a alguns dias a vida dos recém-nascidos das famílias de bóias-frias. As irmãs medicavam os bebês, que muitas vezes tinham que ser internados em instalações improvisadas até não correrem mais risco de vida.
Naqueles tempos, quando o cemitério municipal abrigava frequentemente o sepultamento de bebês e a estatística apontava, a cada mil nascimentos, 127 mortes de crianças até um ano de idade, Florestópolis estava começando a resolver o problema com ações simples, como pesagens mensais, programas de acompanhamento das gestantes, incentivo ao aleitamento materno, de imunização contra epidemias, de distribuição de leite de soja, distribuição da multimistura (composta por sementes de abóbora, melancia, melão, por folhas de mandioca, uva, chuchu, por casca de ovo, farelo de arroz e farelo de trigo) e, a mais famosa, a adoção do soro caseiro.
A tranquilidade do Colégio das Irmãs talvez seja o maior termômetro da mudança de quadro. Nos últimos anos, não há registros de mortes relacionadas à miséria e à desnutrição infantil. Atentas, atualmente 86 líderes comunitárias, distribuídas por setores, continuam fazendo o acompanhamento casa a casa. As beneficiadas continuam sendo as crianças até seis anos de idade. Uma vez por mês enviam os relatórios para serem tabulados, alimentando uma das melhores centrais de dados sobre o tema no País. Tudo isso, sem dinheiro público.
‘‘Depois que houve a mobilização inicial e a consolidação do projeto, o trabalho foi facilitado e hoje a pastoral se incorporou ao dia-a-dia da cidade. Se tem algum caso mais grave, logo é constatado e as voluntárias entram em ação’’, explica Regilândia da Rocha Petile, 25 anos, atual coordenadora da ONG no município.
Com 18 anos incompletos, as atividades da pastoral começam a atender a segunda geração de crianças. ‘‘A gente só lamenta que os programas governamentais não tenham realizado a tarefa de educar esta geração para que todos os problemas não sejam repetidos. A prova disso é que algumas crianças salvas pelo nosso trabalho já são mães, a maioria sem estrutura nem formação para desempenhar esta função. É frustrante que outras instituições não se espelhem em nosso exemplo para realizar algo concreto’’, comenta Regilândia.
Para esta segunda geração, a pastoral está reservando um incremento no número de ações. Está mais voltada a medidas preventivas, como o incentivo a criação das hortas nos quintais e o apoio à alimentação alternativa, de baixo custo e alto valor nutritivo. ‘‘É uma fase mais difícil porque é menos prática e mais conscientização.’’

mockup