'Trabalho para poder trazer meus filhos'

O haitiano Sylvain Silvestre, 41, embarcou primeiro para o Brasil a esposa. Há seis meses, foi a vez dele chegar ao País. Mas os três filhos, de oito, dez e 13 anos de idade, continuam no Haiti. Silvestre deixou a cidade litorânea de Petit-Goâve, a 70 quilômetros da capital, Porto Príncipe, com destino a Cambé (RML), onde começa a se formar um reduto de haitianos, especialmente nos jardins Santo Amaro, Ana Rosa e Tupi.
Silvestre tenta se adaptar ao novo país. Dominar o idioma é a maior dificuldade. Ele frequenta as aulas de português ministradas por um professor voluntário nas noites de sábado no centro comunitário da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no jardim Ana Rosa, mas ainda tem muita dificuldade com a língua. "Se pudesse escolher, teria ficado no Haiti, mas a vida lá está muito difícil, não tem emprego", afirma.
No Brasil, ele teve mais sorte. Pouco tempo após sua chegada, conseguiu uma colocação como encarregado de manutenção em uma empresa e, há cerca de um mês, começou como ajudante de serviços gerais no SecoviMed (Serviço Social de Habitação de Londrina). "Este emprego é bem melhor. Sou muito bem tratado e estou muito feliz", disse. "Trabalho para poder trazer os meus filhos. A saudade que sinto deles é muito grande."
A contratação de Silvestre também foi intermediada pela Pastoral do Migrante. A gerente executiva do SecoviMed, Lia Jacomel, já havia observado a presença de imigrantes em semáforos, pedindo dinheiro aos motoristas, e sentia vontade de ajudá-los. "Em uma ocasião, fiquei tão comovida que até cheguei a levar uma haitiana para a minha casa. Eles saem do país deles e vêm para outro país, onde não conhecem ninguém e ninguém dá oportunidade. Eu quis ajudar", contou.
Quando surgiu uma vaga de auxiliar de serviços gerais, ela entrou em contato com a pastoral e, em dois dias, Silvestre já estava trabalhando. "Ele é muito comprometido. Acho que a pessoa é mais comprometida com o trabalho quando tem um objetivo. Ele não quer só ganhar dinheiro, quer crescer na vida", afirma Jacomel. "Não tenho outra vaga no momento, mas se abrisse, contrataria outro imigrante, com certeza."
Conseguir um emprego é a prioridade de todos os estrangeiros que vêm ao Brasil em busca de melhores condições de vida, mas nem sempre alcançar o objetivo é sinônimo de felicidade. Alguns deles sofrem com a sobrecarga de tarefas e as más condições de trabalho. Um dos estrangeiros afirma ser grato ao emprego que tem, mas se sente explorado e queixou-se à reportagem que mal tem tempo de tomar água durante o expediente e que o patrão trata os funcionários com rispidez. "É muito puxado. Não tenho tempo de comer ou de tomar água. Saio de casa bem cedo, volto de noite e mal consigo ver a minha família."
Apesar do ritmo de trabalho exaustivo cumprido diariamente, a vida no Brasil ainda é melhor do que no Haiti. "No Brasil temos mais segurança", compara.
Burocracia dificulta formalização
A angolana Rita João Bondo, 27, veio para o Brasil há quatro anos para concluir a faculdade de administração de empresas. Depois de fazer alguns trabalhos como freelancer, em maio de 2017 conseguiu uma colocação como estagiária no Café com Propósito. Ela vê o atual emprego como uma oportunidade de crescimento. "Cheguei aqui sem saber nada e vejo que evoluí", disse. "Como futura administradora, estou em um bom trabalho, que requer um empenho de minha parte. Também posso ver como é empreender na base, me dá uma visão mais ampla."
No café, Bondo desempenha várias atividades, desde o atendimento aos clientes até funções administrativas. A oportunidade, lembra ela, só surgiu porque correu atrás. "Não foi só sorte. Eu fui atrás, estava preparada e aceitei a oportunidade quando ela apareceu. Não foi de mão dada."
Bondo convive com outros cerca de 50 angolanos que também residem em Londrina e acompanha a dificuldade de boa parte deles para conseguir um trabalho formal. "Trinta por cento deles estão na luta. É muita burocracia para ter carteira assinada. A maioria é freelancer."
Grávida de oito meses, em maio a angolana deve se afastar do trabalho para licença-maternidade, mas pretende retornar à atividade após o fim da licença, mas não mais como estagiária.
A proprietária do café, Tatiana Bittencourt Moraes, tenta vencer a burocracia para conseguir a documentação necessária para formalizar o contrato de Bondo. "O contrato dela é de um ano e vence em 30 de maio. Estamos tentando fazer a formalização."
Moraes contou que a iniciativa de oferecer uma oportunidade a uma estrangeira partiu da própria experiência, que já viveu no exterior e, para se manter em outro país, realizou atividades que nunca tinha feito aqui no Brasil. "Eu me vi nessa situação, na qual as pessoas precisavam ter paciência comigo e me deram essa oportunidade. Eu quis ajudar. E a Rita é muito dedicada, nunca falta e é super honesta e de confiança."





