Mesmo com o maior número de assentamentos da história do País e um aumento de investimento na agricultura familiar, a oferta de trabalho no campo deve fechar a década de 90 com uma redução de quase 20%.
É o que indicam os números da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), que acompanha a oferta de trabalho na agricultura.
No ano 2000, a Seade prevê que essa oferta fique em 6,185 milhões de Equivalente-Homens-Ano (EHA). Em 1990, a fundação estimou a oferta de trabalho em 7,641 milhões de EHAs. Um EHA equivale à jornada de 8 horas de um adulto durante 200 dias.
‘‘Extrapolando, o número de EHAs é semelhante ao número de postos de trabalho apurados no setor urbano, com a ressalva de que no campo o trabalho é mais flexível e pode ser exercido por várias pessoas ao longo do ano e em regime temporário ou integral’’, explica o pesquisador Otávio Basaldi, da Seade.
De 1995 a 1999, o governo assentou 372.866 famílias, ou 1,864 milhão de brasileiros. Paralelamente, os recursos do Programa Nacional de Amparo à Agricultura Familiar (Pronaf) vêm crescendo sistematicamente.
Na safra 97/98, o governo destinou R$ 1,6 bilhão ao programa. Esse valor sobe para R$ 4,2 bilhões na safra 2000/01, segundo o pacote recém-anunciado pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann.
Os dados do IBGE usados pela Seade revelam, porém, que a área cultivada recuou na última década – de 52 milhões de hectares em 1990, deve passar para 49,993 milhões de hectares neste ano.
Enquanto isso, a produção agrícola deu um salto. O IBGE estima que a safra de grãos atinja 85,9 milhões de toneladas este ano ante 71,9 milhões em 1990.
Na avaliação do professor Walter Belik, consultor da Seade e integrante do Núcleo de Economia Agrícola da Unicamp, a diminuição de oferta de trabalho deu-se por meio de dois movimentos.
O primeiro foi a mecanização da agricultura, que reduziu a necessidade de mão-de-obra no campo. O segundo, a queda no número de pequenos produtores.
Belik afirma que esses dois movimentos têm relação com as mudanças na política agrícola da última década. No fim dos anos 80, o sistema de financiamento subsidiado do governo entrou em crise.
‘‘Esse sistema baseava-se na oferta de crédito subsidiado de acordo com a área que seria plantada’’, explica Belik.
Paralelamente, houve o progressivo endividamento da agricultura, intensificado na era Collor. Nesse governo, ocorreram o confisco bancário, que reduziu a oferta de dinheiro, e a abertura às importações, que expôs à competição internacional a agricultura, até então altamente protegida.
Belik afirma que essa conjuntura levou a agricultura à crise e a produção só começou a se recuperar durante o Plano Real, quando uma nova abertura às importações barateou muito o custo dos insumos.
Como resultado, o economista afirma que o custeio da agricultura deixou de ser baseado no crédito por área plantada garantido pelo governo. ‘‘Ao contrário, quem financia a produção são as empresas de insumos, em troca de um pacote tecnológico que o agricultor tem de adquirir.’’
Para Belik, esse pacote ampliou a produtividade da agricultura, o que explica como a produção aumentou em uma área menor. ‘‘Ao mesmo tempo, é um pacote a que só têm acesso os grandes produtores, excluindo progressivamente os pequenos do mercado’’, observa.

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