Trabalho mantém viva memória de Zilda Arns
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
A alegria pelas muitas vidas salvas pela Pastoral da Criança nos últimos 26 anos deu lugar a uma profunda tristeza ontem em Florestopólis, município localizado 73 km ao norte de Londrina e que abrigou o início de um trabalho revolucionário, hoje presente em 27 países. Ainda chocadas com a notícia da morte da antiga companheira e fundadora da Pastoral, a médica sanitarista Zilda Arns, as 45 mulheres que lutam diariamente contra a mortalidade infantil no município encontraram na oração uma forma de amenizar a dor. Após se reunirem na catedral, participaram do hasteamento das bandeiras oficiais a meio mastro. A cidade está de luto. A médica foi uma das vítimas do terremoto no Haiti.
As palavras construtoras que ela pronunciou junto a nós continuarão produzindo frutos. Não a imaginamos como uma pessoa morta, mas como uma intercessora junto a Deus, disse Neuza Souza Carnelossi, uma das fundadoras da Pastoral no município. Ela lembrou que, quando foram chamadas em 1984 para uma reunião na escola onde funcionava o jardim da infância, para decidir se implantavam mais uma pastoral na comunidade, de cada mil crianças nascidas no município, 127 morriam.
Graças à inspiração da Pastoral da Criança, nasceram o trabalho dos agentes de saúde e todas as orientações básicas que até hoje são repassadas às mães para o desenvolvimento da criança, argumentou Neuza. Logo no início dos trabalhos foi promovido um arrastão na cidade. Foi uma revolução, implantamos hortas comunitárias por toda a cidade. O resultado do esforço não demorou a aparecer: no primeiro ano o índice de mortes caiu para 28 por mil nascidos.
Para a coordenadora da Pastoral no município, Eunice Vicente Cardoso, a principal herança deixada por Zilda Arns foi a garra e motivação para promover a vida. Ela sabia se comunicar tanto com as mães como com as pessoas mais influentes. Para cada um ela tinha uma linguagem. Era uma grande mulher, resumiu Eunice. A Pastoral atende 678 crianças em Florestópolis, e está presente em outros 3,4 mil municípios brasileiros, por meio do trabalho de 150 mil voluntários.
A médica esteve pela última vez na cidade em novembro, para participar da inauguração do Centro de Atendimento Integrado ao Adolescente e à Criança Zilda Arns, que vai atender 200 crianças e adolescentes no contraturno escolar. Esta estrutura foi construída graças à intervenção dela. Quando esteve aqui, ela falou muito da expansão da Pastoral pela América Latina e nos contou sobre a viagem que faria ao Haiti, lembrou o presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, Antonio Marcos Luz.
Entre as muitas crianças salvas pelos cuidados preconizados pela Pastoral da Criança está Thiago da Silva, hoje com 23 anos. Sua mãe, Maria Aparecida da Silva, sabe que esteve prestes a perder o filho, que nasceu prematuro, com menos de um quilo. Com oito meses, ele era tão miudinho que não dava nem para segurá-lo direito, lembra. Internado no Centro Nutricional da Pastoral, o garoto se recuperou e hoje, aos 23 anos, é pai de uma garotinha de 2,6 anos, também atendida pelas voluntárias.


