Trabalho infantil: a perpetuação da miséria
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quinta-feira, 01 de maio de 2003
Agência Estado 
São Paulo - A infância é uma das etapas mais importantes do desenvolvimento humano. Da infância até a vida adulta, vários estágios se repetem para suprir necessidades específicas. Necessidades emocionais. Entre 6 e 12 anos, ocorre a primeira etapa desse desenvolvimento. Nesse período, a criança aprende, com a brincadeira, a desenvolver habilidades sociais, que ajudam a moldar a personalidade. ''Sem as brincadeiras, elas não aprendem a expressar sentimentos como raiva, angústia e outras sensações'', diz Mônica Geise Cereser, psiquiatra e pediatra do Hospital Samaritano, em São Paulo.
As brincadeiras são responsáveis pela estruturação do tempo, sociabilização e aquisição de valores. Quando a criança tem um trabalho, ela não tem tempo para aprender a lidar com suas sensações, os estímulos recebidos que se tornam sentimentos. Pulando essa etapa, surge uma ''ordem interna'' que os especialistas chamam de ''apressa-te a crescer''. ''Essa criança torna-se mais fria e travada emocionalmente. Ela tem medo de sentir devido a falta de estímulo emocional'', diz Mônica. Afetando parte da personalidade e sem conseguir estruturar-se internamente, a psiquiatra afirma que os resultados diretos desses danos emocionais não são fáceis de se prever.
Na escola, durante esse período, a criança é estimulada a desenvolver seu potencial criativo, que é de 98%. ''Para se ter uma idéia, o adulto tem menos de 10% desse potencial. Se a criança não vai à escola perde essa oportunidade'', alerta a psiquiatra. No entanto, enquanto está entre 6 e 12 anos, a criança não tem condições de escolher o que é melhor para ela, aprende a pensar, sentir e agir também sob influência dos pais. ''Ela entende que o que está sendo proposto para ela é o melhor no momento. Mais tarde, quando ela perceber o que perdeu, pode gerar conflitos.''
Nas fases de pré-adolescência e adolescência, dos 13 aos 18 anos, o jovem está em busca de independência e autonomia. Se a estrutura emocional da fase anterior não estiver completa, a auto-estima é a primeira a ser comprometida. ''O jovem se bombardeia com mensagens negativas, afetando a sexualidade e a busca por melhores condições, afinal sua auto-estima é baixa'', reforça Mônica. A tendência do jovem é buscar autonomia, mas se ele se encontra impossibilitado devido ao trabalho ''forçado'' todas demais metas para sua vida se tornam sonhos impossíveis. ''Nessa fase também ocorre a reafirmação dos valores, etapa que começa aos 6 anos. Caso esses valores estejam confusos, está criada a bagunça.''
De acordo com Mônica, o acesso fácil à informação, resultado da globalização, permite que o jovem compare a sua realidade a outras e perceba a diferença. A vontade de ter coisas e levar uma vida diferente causa confusão de sentimentos.
Mesmo quando a primeira fase se completa sem ''pendências'' emocionais, alguns jovens precisam de um envolvimento maior na segunda fase de desenvolvimento, com mais carinho e atenção. ''Nesse período, eles cometem seus próprios erros e o apoio dos pais é fundamental para assegurar que tais erros não sejam desastrosos'', diz Mônica.
''Existem pais que acreditam que o trabalho nessa fase ajuda a reforçar as responsabilidades do adolescente. No entanto, no contexto social do nosso País, como esse trabalho é imposto, isso é irreal'', afirma Ruy Pavan, coordenador da Unicef da Bahia. De acordo com ele, o contexto brasileiro contribui para aumento da violência, quando os jovens são seduzidos por organizações criminosas. ''Trabalhando desde cedo, esses jovens não aprendem sobre seus direitos. Não se organizam para exigir melhores condições de trabalho, aliás nem saberão o que isso significa.''


