Arquivo FolhaDupla jornadaEstudo mostra que 72% das mulheres são capazes de prover o próprio sustento sozinhasMulheres que entraram no mercado nos últimos 15 anos mais para ajudar o marido a complementar o orçamento doméstico do que para buscar satisfação pessoal passam por profundas transformações em seus valores. Pesquisa recém-concluída na região metropolitana de São Paulo mostra que para a maioria das mulheres casadas, entre 40 e 49 anos, a relação com o marido deixou de ser prioridade. Em primeiro lugar vêm os filhos e o trabalho.
Entre as mulheres que hoje reclassificam as relações com o marido na escala de importância, 72% ainda são casadas. A maioria, 33%, casou entre 15 e 20 anos e 23% entre 21 e 25 anos. Nos últimos anos, as brasileiras, em especial as paulistas, vivenciaram processos sociais significativos. Até 1930, sequer tinham direito a voto e não eram estimuladas a estudar. Vinte anos depois, passaram a alistar-se no crescente contingente de operários do Estado.
Uma pesquisa de doutorado defendida pela assistente social Cilene Swain Canôas, de 56 anos, na Pontifícia Universidade Católica (PUC), busca captar parte das mudanças que se processam no universo feminino. No dia 30, a tese foi lançada pelo Serviço Social do Comércio (Sesc), em formato de livro, com o título O Olhar Feminino sobre 2010. ‘‘Tento mostrar como essas mulheres estão projetando seu futuro’’, explica a pesquisadora. Em 2010, essas mulheres representarão quase 70% dos 20 milhões de idosos brasileiros.
Lia (nome fictício) é um pouco mais nova do que Elza, Luíza ou Sílvia, algumas das 60 entrevistadas. Mas, quando começou a trabalhar há 12 anos, tendo como formação o 1º grau completo e como responsabilidade o sustento de três filhas pequenas passou a integrar o universo das ‘‘Marias’’ á- que misturam gana, dor e alegria - dos versos de Milton Nascimento e Fernando Brant, e da pesquisa, segundo a qual 72% das entrevistadas são capazes de prover o próprio sustento sozinhas.
Quando o segundo marido - com quem tem a quarta filha - começou a se tornar alcoólatra, Lia percebeu que não bastava manter o emprego no departamento pessoal de uma companhia de energia elétrica. Era preciso progredir para não correr o risco de ver reduzido o salário de R$ 1,8 mil. Fez supletivo e concluiu, em seis meses, o 2º grau. ‘‘Pegava as apostilas e levava para casa para estudar de madrugada.’’
Convidada a eleger uma característica comum a todas as entrevistadas (30% têm 1º grau incompleto e 28%, 3º grau completo), independente da classe social ou da escolaridade, Cilene não hesita: ‘‘A garra de progredir’’. Das entrevistadas, 63% trabalham, estão satisfeitas com a ocupação, mas gostariam de progredir ainda mais; 65% dizem estar ‘‘insatisfeitas’’ com o próprio grau de escolaridade.
Apesar de estarem mudando, as mulheres ainda trazem as marcas de séculos de subserviência. Para a maioria, 30%, o trabalho é uma maneira de ‘‘facilitar a vida dos outros’’ e para 25% a satisfação pessoal está agregada a essa característica. Questionadas sobre o maior desejo, a maioria ainda transfere os sonhos para a família: 24% gostariam de ver os filhos ‘‘formados ou criados’’; 21% comprariam uma casa e 18% ampliariam os negócios ou melhorariam no trabalho. A maioria das entrevistadas, 53%, teve filhos até os 25 anos e ainda os consideram, assim como os netos, a maior fonte de felicidade.
Entre as entrevistadas, 72% começaram a manter relações sexuais com o marido, sem ter informação sobre sexo. Além disso, há o estresse decorrente da entrada no mercado de trabalho e do acúmulo das funções domésticas. Em São Paulo um serviço psiquiátrico é especializado no atendimento de pessoas que desenvolveram problemas psíquicos em função do trabalho. ‘‘É mais fácil uma mulher que trabalha desencadear processos ansiosos ou depressivos’’, explica a psiquiatra Luíza Aparecida Pinheiro.

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