Trabalho dobrado para os socorristas
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Paulo Monteiro<br>Equipe NossoDia 
Londrina - Natal, Ano-novo e confraternizações por toda a parte. Tudo regado a muita bebida alcoólica. Mas se tem festas para todo lado, com certeza, tem trabalho dobrado para a "turma" do 3° Grupamento de Corpo de Bombeiros de Londrina, sempre atenta para atender o próximo pedido de socorro.
O número de ocorrências dobra nesta época do ano e a reportagem do NossoDia foi acompanhar de perto o trabalho desses "anjos da guarda" madrugada a dentro, registrando cenas de um cotidiano violento: desde um grave acidente no centro até um homicídio covarde na zona norte.
Mas não é só de ocorrência violenta que é feita a noite dos bombeiros. Por volta das 22 horas de sexta-feira, acompanhada da mãe Samira, uma garotinha de 10 anos chegou ao quartel localizado na Rua Jaguaribe, Vila Nova (área central), chorando e pedindo para que um bombeiro retirasse o anel de metal que entalou em seu dedo. O objeto foi retirado sem que a garota derramasse uma lágrima sequer. Experiência que fez Samira admirar ainda mais o trabalho dos profissionais. "Eles são demais."
Desespero
Daí em diante não faltaram gritos de desespero e sangue na madrugada. Exatamente à 0h11 de sábado, na Avenida Leste-Oeste com a Rua Chapecó, Centro, um carro colidiu com a traseira de uma motocicleta, jogando o condutor Cleverson Guilherme Machado, de 20 anos, sobre a calçada da via. Covardemente, o motorista do carro fugiu e deixou Machado sofrendo até a chegada do Siate.
Os bombeiros Fernando Duarte e Henrique constataram uma contusão no crânio e escoriações no corpo da vítima, que foi conduzida ao Hospital Universitário (HU) em estado grave.
Mas o pior ainda estaria por vir. Por volta das 3 horas, os socorristas Maurício de Oliveira e Ademilson Alves deixaram o quartel na Vila Nova em direção à Avenida Saul Elkind, Conjunto Vivi Xavier, na zona norte, para atender uma pessoa baleada. No local, a constatação da gravidade. Ieda Caroline Peixoto de Souza, de 18, foi ferida no tórax e nos dois braços.
A jovem permaneceu consciente e gritava muito de dor. Além do sangramento em seu peito, os dois braços ainda foram fraturados pelos tiros. Sem controle, a jovem agitava os dois membros, que acabaram se dobrando na região onde ocorreram as fraturas. O osso de um dos braços esticou a pele e por pouco não rasgou o tecido. Cena que chocou a todos que presenciaram o atendimento. Menos o socorrista Oliveira que, após prestar o socorro, demonstrava tranquilidade. Ele, que está há 16 anos no Siate, revela que hoje dificilmente se emociona com os casos.
A jovem ainda foi levada para a Santa Casa, mas não resistiu aos ferimentos e morreu momentos depois.
Vilão
O consumo de álcool é o principal "vilão" na noite londrinense, observa o soldado Sidney Biagioni, do Corpo de Bombeiros. "Mais ou menos 80% das vítimas que atendemos nessa época do ano estão alcoolizadas." Isso acontece por causa das confraternizações de Natal e de Ano-novo, aumentando também ocorrências para os socorristas.
Biagioni conta que em um plantão de 24 horas, normalmente, costuma atender entre 25 e 30 casos. Número que dobra neste período do ano. Bombeiro há 25 anos, Biagioni dedicou 17 deles ao Siate. E acompanhou uma mudança de comportamento da sociedade. "Antes, principalmente na época de Natal, a gente observava que as pessoas se reuniam com um espírito maior de fraternidade com a família. Era um clima mais de paz, né!? Mas hoje em dia parece que é diferente, o Natal acabou virando mais um motivo para a pessoas beber."
E para quem gosta de beber, a primeira orientação do tenente Rodrigo Costa é de que a pessoa não faça associação de álcool com direção. "Quem tiver o comportamento de consumir álcool, a recomendação é de que use um táxi ou troque com um amigo ou familiar que não irá beber", conscientiza Costa.
Adversidades
Apesar de todo o esforço, os bombeiros ainda são obrigados enfrentar várias adversidades durante o trabalho. Entre eles, está o de se depararem com hospitais superlotados, que muitas vezes não têm vagas e, quando tem, não possuem equipamentos para receber uma vítima grave.
Em outras situações, por exemplo, o médico do Samu, por dar preferência a casos clínicos, não pode ir até o local da ocorrência auxiliar os socorristas do Siate.
Enfim, um socorrista do Siate tem que ter muita disposição e paciência. Características que podem estar afastando recrutas da ambulância. O soldado Ademilson Alves, que entrou no Siate há cerca de um ano, revela que atualmente há poucos interessados em fazer a mesma escolha. "O pessoal acha que é muito desgastante e corrido o trabalho no Siate. Mas isso é o que mais me atraiu", contou.


