São Paulo, 28 (AE) - Em setembro do ano passado, o trabalhador do comércio da Grande São Paulo ganhava R$ 703 em média, em valores de hoje (descontada a inflação). Este ano, também em setembro, ele ganhou R$ 570. Os comerciários têm data-base em dezembro e mesmo que consigam 16% de reajuste, ou seja, o dobro da inflação prevista para este ano, eles ficarão no prejuízo.
Por isso, a leitura de que a reposição da inflação dos últimos 12 meses pode provocar inflação, via forte aumento da demanda, deve ser considerada com muito cuidado. A pesquisa Seade-Dieese é clara nesse ponto: os trabalhadores este ano estão muito mais pobres, com ou sem os vistosos reajustes do semestre.
Outro exemplo: o trabalhador na indústria precisaria de reajuste de mais de 15% para voltar a ter o poder de compra de 1996, de cerca de 10% para chegar ao nível de 1997, e de 7% para ganhar como no ano passado. Esses são índices difíceis de ser alcançados em pequenas empresas, que embora não ganhem publicidade na hora das negociações, são as que empregam maior número de pessoas.
Para o diretor técnico do Dieese, Sérgio Mendonça, a hipótese de ganhos para os trabalhadores no ano que vem é remota por causa do índice de inflação projetado no ano 2000 (entre 6% e 8%), que vai corroer a renda, e por causa do tamanho do desemprego. A conclusão dele é que pelo lado do salário é pouco provável qualquer pressão sobre preços.
Pelo lado do emprego, o risco de aumento de inflação em 2000 é ainda menor. A sequência de recordes de desocupação pode não ter terminado, mesmo que o País saia da recessão. "Suponhamos que haja um aumento substancial de empregos no mercado", explica Mendonça. "Nesse caso, é de se esperar também um aumento do número de pessoas procurando se recolocar no mercado."
Isso acontece sempre que a economia dá sinais de recuperação, lembra o economista. Pessoas que haviam desistido de procurar colocação por falta de esperança e jovens que postergaram o início de suas vidas profissionais, se apresentam em bloco, sempre que há boas notícias. Como o índice de desemprego é resultado da relação entre estoque de ocupações e número de interessados, o índice pode continuar subindo, mesmo com crescimento econômico. E, com índice de desemprego alto, caem salários, prolifera a informalidade (que traz empobrecimento) e o consumo cai.

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