Trabalhadores buscam um pouco de prosperidade
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quarta-feira, 20 de outubro de 1999
Por David Crary 
Wilkes-Barre, EUA (AE-AP) - Goste ou não, Andrea Cooper está fazendo a sua parte para o combustível do surto econômico. Ela tem três meses e está sendo encaminhada para um programa de creches para que sua mãe possa repor os pagamentos do sistema de bem-estar social com um salário de US$ 6,75 por hora em um hospital. "Vai ser difícil", diz Tonya Cooper, a mãe solteira de Andrea de outras três crianças. "Eu me sinto mal ao deixá-la tão pequena, mas eu realmente acredito que Deus não vai colocar minhas crianças em perigo".
Não há nada de novo sobre a pobreza nos EUA. Mas nunca antes famílias pobres como os Coopers tiveram que confrontar suas lutas diárias em meio à impregnante prosperidade, sem precedentes na história do país. Enquanto a riqueza cresce, fazendo as bolsas de valores explodirem, milhões de assalariados americanos tateiam por uma parte irrisória do boom.
Apesar do crescimento econômico, o país perdeu um milhão de empregos na produção na última década. A média de salários para altos executivos quadruplicou desde 1990, mas aproximadamente 45 milhões americanos, incluindo em sua maioria os que recebem salários bem baixos, carecem de seguros de saúde.
Muitos foram expulsos dos serviços de bem-estar social com as reformas nacionais, outros são vítimas dos desemprego ou da falta de conhecimento profissional que agora é exigida. Os salários são geralmente muito pequenos para permitir a auto-suficiência, sem seguro de saúde ou outros benefícios.
Tonya Cooper e outros residentes de Wilkes-Barre parecem mais fatalistas do que irritados quando discutem suas vidas. Mas aqueles que trabalham contra a pobreza nesta cidade de 48 mil habitantes expressam seu horror em seus nomes.
Irmã Marie Larkin, uma freira católica que veio da Irlanda para a Pensilvânia nove anos atrás, continua chocada com o fato de que uma nação tão próspera possa abrigar tamanha pobreza.
"Os presidentes dessas companhias ganham milhões", diz ela. "Eles ganham porque alguns pobres trabalhadores estão ganhando muito pouco. Eu acho que isso é um crime".
Irmã Marie, que cuida de um abrigo para mulheres em dificuldades, comparou as experiências de suas amigas que trabalham na Zâmbia, um país esgotado país da áfrica. "Eu acredito que os pobres daqui estejam em situação pior", afirma ela. "Na Zâmbia eles não sabem do que estão de fora".
Décadas atrás, Wilkes-Barre era uma próspera cidade do cinturão e carvão da Pensilvânia. À medida em que as minas foram gradualmente fechando, as taxas de desemprego aumentaram. Elas decolaram para dois dígitos após várias fábricas, principalmente da indústria do vestuário, deixarem o local. Em mais de oito anos de crescimento econômico nacional, Wilkes-Barre gradualmente alcançou uma taxa de desemprego de 5,7%, a menor desta década, embora abaixo da taxa nacional de 4,2%.
Líderes municipais anunciaram novos empregos como uma evidência de uma mudança, mas a maioria são serviços que pagam pouco nas áreas de saúde, vendas e telemarket e que oferecem menos de US$ 7 por hora. "Eles não são trabalhos para alguém que sustenta uma família", diz Joe Capece funcionário do sindicado dos eletricitários e do sindicato regional do comércio. "Nós precisamos de empregos que possibilitem uma pessoa a cuidar de uma família, comprar uma casa. Em lugar disso
estão pedindo às pessoas que vivam na pobreza".
Capece repete as reclamações ouvidas geralmente em Wilkes-Barre: alguns varejistas e outros empregadores estão contratando pessoas para trabalhar de 30 a 34 horas por semana, abaixo das 35 horas-limite necessárias para que os trabalhadores se qualifiquem para os benefícios dos funcionários em tempo integral. Nacionalmente, de acordo com a Agência de Estatísticas do Trabalho, 3 milhões e 200 mil pessoas trabalham involuntariamente em empregos de meio período.
Wilkes-Barre tinha forte atividade sindical, mas esta força deixou de existir com a perda dos empregos na manufatura. Dados locais refletem a tendência nacional: membros de sindicatos agora somam 14% da força de trabalho americana, comparada com 20% em 1983.
A maioria dos empregos dos trabalhadores sindicalizados que foram perdidos em Wilkes-Barre pagavam duas vezes mais do que as novas atividades. Alguns dos maiores empregadores, tais como Mart e McDonalds tem resistido aos esforços de união sindical em todo o país, com sucesso quase total. "As pessoas têm medo de se organizar", diz Capece.
Um trabalhador como Jay Miscavage não tem a oportunidade de conquistar uma filiação sindical. Sem casa e abatido pela perda de 11 quilos, ele tem conseguido empregos temporários, pulado refeições e dormido em sua pickup no estacionamento de um motel.
"Eu tenho sorte de ter um carro", diz ele. "As pessoas com quem eu estou trabalhando estão dormindo na floresta". Miscavage, 39 anos, discute sua situação após terminar uma porção de pizza na St. Vincent de Paul Kitchen, um programa que distribui comida no centro da cidade. O local serve de 300 a 400 almoços por dia. Uma década atrás este número não chegava a 100.
Por várias semanas durante o verão, Miscavage resistiu à idéia de ir ao local, apesar de estar praticamente sem dinheiro. "Eu achava que lá havia pessoas que mereciam mais a comida do que eu".
O que o fez mudar de idéia? "Eu estava com fome", explica.
Miscavage trabalhou por 12 anos como paisagista, ganhando US$ 12 por hora, um bom salário para os padrões locais, mas estava descontente com seu chefe e pediu demissão.
"Eu achei que seria capaz de encontrar algo melhor, mas as coisas não aconteceram desta forma", diz ele, lembrando e um trabalho temporário recente que pagava pouco mais do que o mínimo permitido de US$ 5,15. "Eles dizem que a economia está crescendo, mas você tem que trabalhar por US$ 5,50 por hora. É impossível guardar qualquer dinheiro. São os ricos que ficam mais ricos".
As estatísticas sustentam as reclamações de Miscavage. Dados recentes do Escritório de Orçamento do Congresso Americano mostram que as posses dos 20% mais pobres serão em média de US$ 8.800, após o pagamento de imposto de renda neste ano, quando era de US$ 10.000 em 1997. Ao mesmo tempo, a renda média do 1% mais rico da população mais do que duplicou para US$ 515.600 após todos os descontos.
Jared Bernstein, um economista do Instituto de Política Econônica, um grupo de pensadores de Washington, diz que as tendências em Wilkes-Barre refletem problemas nacionais preocupantes. "É um local em que homens de colarinho azul podiam encontrar trabalho decente, de classe média", conta. "A qualidade dos empregos que eles perderam são obviamente muito superiores aos que estão sendo criados.


