Rio, 24 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou hoje que é possível que o governo reduza as importações de petróleo por causa do aumento de preços do produto no mercado internacional, que havia chegado a 120% até hoje, neste ano. Mas enquanto o ministro de Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, defendeu a medida, o diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo (ANP), David Zylbersztajn, afirmou que o que importa é atender às necessidades do mercado.
As declarações foram feitas na solenidade de assinatura dos contratos para exploração de petróleo e gás em áreas licitadas pela ANP ainda em junho. Na solenidade, Zylbersztajn também defendeu o aumento dos preços dos combustíveis no mercado interno, quando houver alta do valor do petróleo, mas Tourinho lembrou que eles não vão acontecer até o fim do ano.
"O que se diz é que provavelmente até março haverá uma pressão sobre os preços", afirmou o presidente, na coletiva após a assinatura dos contratos. "Se for isso, o Brasil vai ter de fazer um equilíbrio necessário e aumentar a produção local para importar menos nesse período", admitiu. Fernando Henrique avisou que o assunto ainda é estudado pelo governo e não há uma solução para o caso.
Uso racional - Zylberzstajn mostrou-se contrário à idéia. "Você não pode obrigar a redução das importações", disse o diretor-geral da ANP, que é genro do presidente. "Você tem de atender ao mercado", afirmou. O diretor da agência defendeu o medidas para o "uso racional" dos combustíveis - mas ressalvou que isto não significa racionamento. Ele citou como exemplo destas medidas a regulagem dos caminhões e pedágios mais baratos em automóveis que transportem três ou mais pessoas.
Ao ser questionado sobre a redução das importações de petróleo, o ministro Tourinho afirmou que a Petrobrás já estava "adequando seus estoques" do produto. "A Petrobrás não vai atrapalhar a balança de pagamentos", afirmou. A possibilidade de redução de compra do produto do exterior surgiu por causa do peso que estas operações têm no déficit da balança comercial.
O presidente lembrou que a produção de petróleo no Brasil tem aumentado. "Este ano devemos estar produzindo 1,2 milhão de barris por dia", citou. "Há quatro anos, eram 600 mil a 700 mil (barris)", recordou. Segundo Fernando Henrique, até 2004 ou 2005 "provavelmente" o País estará produzindo 2 milhões de barris diariamente. "Hoje, consumimos 1,7 milhão", declarou.
Aumento de gasolina - As declarações do ministro e de Zylbersztajn sobre um novo reajuste dos combustíveis para compensar a alta internacional do petróleo também foram divergentes. "O presidente da República já afirmou que não vai haver aumento de combustíveis até o fim do ano", afirmou Tourinho. "A não ser que haja um aumento fantástico (dos preços do petróleo)", acrescentou.
Antes, Zylbersztajn havia defendido aumentos de preço, para acompanhar a variação do petróleo. "Acho que gasolina barata é um tiro no pé", afirmou o diretor da ANP. Ele explicou que, sem os reajustes, toda a sociedade, inclusive as pessoas que não têm automóvel, teria de pagar pelo custo maior de importação do petróleo. "Se você não aumenta a gasolina, está gerando déficit público", defendeu.
Zylberstajn ressalvou que esta era sua opinião pessoal e "acadêmica", e não significava que a agência esteja recomendando um novo aumento dos preços dos combustíveis. Ele explicou que, quando consultada pelo governo sobre o assunto, a ANP apenas "presta informações" sobre o setor. Mas o diretor da ANP lembrou que cálculos preliminares indicam que, desde que começou a alta do petróleo no Exterior, o governo vem gastando mensalmente US$ 100 milhões a mais para a importação do produto.
Auto-suficiência - O presidente afirmou que, embora o Brasil tenha condições de ser auto-suficiente em petróleo, "nem sempre isso é importante". Ele lembrou que os Estados Unidos também têm estas condições mas não se abastecem somente no mercado interno. "Mesmo que você tenha os recursos, é mais conveniente importar, guardar reservas, é questão de política energética", afirmou. Segundo Fernando Henrique, a auto-suficiência "será possível" por volta de 2005 ou 2006.

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