O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Lucas Moreira Neves, atribuiu a um ‘‘equívoco da imprensa’’ a idéia de que o papa João Paulo 2º pretende dar uma face mais liberal ao tratamento da Igreja Católica a temas como aborto, mães solteiras, contracepção e homossexualismo. ‘‘O papa não vai amenizar ou suavizar a doutrina moral da Igreja sobre a família e o matrimônio’’, avisou dom Lucas. ‘‘Houve um mal-entendido: ele vem revigorar a doutrina e os valores católicos sobre a família, que vêm sendo agredidos e machucados.
O cardeal deu como exemplo dessa agressão, no Brasil, o fato de existirem sete projetos de lei no Congresso que, para ele, são lesivos à instituição familiar - entre eles, o que regulamenta o aborto em casos de estupro e de risco para a mulher. Dom Lucas garantiu que posições mais flexíveis manifestadas recentemente pela Igreja, como um documento do Vaticano pedindo maior atenção à mãe solteira e a carta dos bispos dos EUA recomendando um tratamento mais carinhoso aos homossexuais, estão, na verdade, na doutrina histórica da Igreja.
‘‘Faz parte da caridade e misericórdia pastoral levar em conta as fraquezas humanas’’, afirmou. ‘‘O papa já falava sobre isso num documento escrito há dez anos e não vai lançar isso pela primeira vez aqui. Ele teme que tenha se criado uma falsa expectativa em relação a João Paulo 2º divulgar alguma novidade sobre o assunto nessa visita ao Brasil. ‘‘É um perigo deixar a impressão de que o papa veio a Brasil tratar disso, porque, como não vai acontecer, a imprensa vai dizer que ele recuou’’, advertiu o cardeal.
Apontado por um dos mais conhecidos estudiosos do Vaticano, o jornalista italiano Marco Politi, como um dos possíveis sucessores de João Paulo 2º, dom Lucas garantiu que não pensa mais do que 15 segundos sobre o assunto quando levantam essa possibilidade. ‘‘Respeito o Politi, mas acho que está acolhendo uma especulação que, acredito, nasceu das agências internacionais e não há nada que a sustente’’, afiançou.
Ele se disse perplexo com a atitude de grupos evangélicos, que prometeram manifestações contra a vinda do papa. ‘‘Como presidente da CNBB, se eu soubesse que grupos católicos hostilizariam uma visita do Dalai Lama ou de um imã muçulmano, eu diria que esses católicos estão agindo fora do Evangelho’’, reagiu. Dom Lucas argumentou que, além de líder religioso, o papa é um líder mundial. ‘‘O Santo Padre faz parte de uma espécie em extinção, a dos verdadeiros líderes mundiais, preocupados não apenas com a moralidade religiosa, mas com a justiça social’’, afirmou.
Numa demonstração dessa linha adotada pela Igreja, a CNBB elegeu como tema da Campanha da Fraternidade de 1999 o desemprego, com o seguinte slogan: ‘‘Sem trabalho, por quê? Uma série de documentos está sendo preparada pelos bispos sobre o assunto. O tema do ano que vem, educação, já está desenvolvido e dom Lucas pretende se encontrar com o presidente Fernando Henrique Cardoso e o ministro da Educação, Paulo Renato de Souza, para apresentar a posição da Igreja sobre a questão. ‘‘Pessoalmente, acho que todo o problema de desemprego e salários baixos relaciona-se com saúde e educação.

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