Lima, 07 (AE) - Havia pelo menos 100.000 pessoas reunidas na frente do palanque, sobre o qual não faltavam dezenas de bicões. Todas gritavam frenética e histericamente a cada discurso de tom populista, de cada candidato às vagas do Legislativo.
A maioria não resistia e dançava ao som do sucesso "É o Tchan", enquanto acompanhava o rebolado de três imitadoras de Carlas Perez. Poderia ser um comício político qualquer em alguma cidade do Brasil.
Apesar das semelhanças, contudo, tratava-se do comício de encerramento da campanha do presidente peruano, Alberto Fujimori
candidato a um terceiro mandato consecutivo nas eleicões de domingo.
Foi uma festa popular e populista. O jingle oficial da campanha de Fujimori, uma tecno-cumbia que ressalta as virtudes do "Chino", tocava entre uma e outra versão peruana das axé music brasileiras.
De todos os arredores de Lima, os ônibus começaram a chegar por volta das 16h, todos lotados de fujimoristas entusiasmados, com bandeiras, faixas, bonés e todo o tipo de bugiganga eleitoral que o dinheiro pode comprar.
Muitos ativistas não aguentaram o forte calor de Lima em meio à multidão. Desmaiavam, passavam mal, procuravam ajuda no único posto médico à disposição - localizado atrás do palanque onde o presidente discursaria.
Fujimori atrasou-se. Teve um dia cheio. Horas antes, um cinegrafista que acompanhava sua comitiva morreu e outras seis pessoas ficaram feridas num acidente de carro na estrada de Huáncayo.
A princípio falou-se em atentado, que, de imediato, foi atribuído ao Sendero Luminoso, organização guerrilheira maoísta desarticulada e quase extinta durante o governo do "Chino".
O presidente subiu ao palco tarde. Passava das 21h (23h de Brasília) quando deu o ar de sua graça. Não expôs nenhum plano de governo, como se esperaria de qualquer político em campanha.
Desfiou suas conquistas durante os dez anos em que se mantém no poder. "Das serras ao litoral, o povo peruano conhece nossa proposta", discursou.
"Depois de vencer o terrorismo, o narcotráfico e a inflação, nossa meta agora é a de tornar o Peru um país industrializado, para trazer trabalho para nossa gente."
Incentivada pelo locutor oficial, o público repetia em coro: "Chino és trabajo! Chino és trabajo!" Estrategicamente, não fez menção a nenhum outro candidato nem às advertências do governo norte-americano de que o país poderia sofrer sanções se as eleições de domingo não fossem limpas e justas.
O candidato-presidente parecia esforçar-se para não demonstrar o cansaço que sentia. Saudou a "todos os peruanos" e foi ovacionado pela multidão. "Vamos vencer, e vencer agora, no primeiro turno", gritou ao microfone, levando a platéia ao delírio. Falou por cerca de uma hora e meia. Dançou, com o microfone na mão e sorrindo, quando foi interrompido pelo jingle que assegura que os peruanos querem o "ritmo de Chino". Trouxe ao palco a filha, Keiko, que nomeou primeira-dama depois de separar-se de Susana Higuchi.
Ao fim do pronunciamento, chamou seu candidato à vice-presidência, Francisco Tudela. Um dos reféns da tomada da residência do embaixador japonês por rebeldes do Movimento Revolucionário Tupac Amaru (MRTA), há mais de três anos, Tudela fez um discurso mais contundente contra "os partidários da violência" e conclamou os "amantes da paz" a votar na chapa que forma com o presidente.
Fujimori encerrou em grande estilo uma campanha eivada por denúncias de irregularidades de todos os tipos. Praticamente todas as emissoras de tevê transmitiram ao vivo as mais de quatro horas da combinação de show de música e comício eleitoral.
Ao mesmo tempo, em Cuzco, antiga capital do Império Inca, longe das câmeras, o principal adversário de Fujimori, o economista Alejandro Toledo, do movimento Peru Possível, também encerrava sua campanha.
Alguns assesores chegaram a criticar a decisão de Toledo de fazer seu último comício no sul do país. "Com isso demos a Fujimori terreno livre para arrastar uma multidão para o centro de Lima", disse à Agência Estado um colaborador de Toledo em Lima, que pediu para não ter o nome divulgado.
De todo modo, integrantes do partido de Toledo garantiam que outras 100 mil pessoas tinham presenciado o discurso do candidato em Cuzco. Em Lima, fontes diplomáticas e de imprensa consideravam essa cifra exagerada.
Em seu discurso, Toledo prometeu tomar posse em Macchu Picchu caso vença as eleições. "Eu me comprometo com vocês: quando chefes de Estado estrangeiros chegarem para a transmissão de mando, hei de tomar posse nas alturas de Macchu Picchu", disse, prometendo aumentar o investimento na indústria do turismo da região. "Afortunadamente, as principais atrações turísticas do Peru não estão em Lima", acrescentou.
Os partidários de Toledo estavam eufóricos com uma pesquisa de intenção de voto que indicava uma possível vitória sobre Fujimori já no primeiro turno.
Indagado sobre a confiabilidade das pesquisas, o assessor do candidato oposicionista desmentiu a versão de que as sondagens de opinião no Peru não são confiáveis. "Pesquisas são feitas com base em critérios científicos, por isso são confiáveis, sim. O que nunca foi muito confiável no Peru são os políticos."

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