O psicanalista Marcelo Castro é cuidadoso ao classificar como saudável ou doentio o interesse por aquilo que é mórbido ou causa medo seja em livros, filmes ou mesmo em situações do dia-a-dia, como a curiosidade perante acidentes ou crimes.
De acordo com ele, questionar o porquê dessa busca pode ser o caminho para a resposta. ''Não critiquemos o terror, mas a procura que a pessoa faz dele: o que isso representa na vida dela? A nossa cultura não tem nada mais a oferecer que não o grotesco, o bizarro, a desgraça do outro?'', questiona. Nesse sentido, o psicanalista deixa transparecer uma certa preocupação com os aficcionados: ''Filmes, livros e games do gênero podem fazer mal quando houver uma identificação com o agressor. Todos temos um Freddy Krueger dentro de nós, assim como temos também mecanismos de repressão sem os quais a vida em sociedade seria impossível'', analisa.
O interesse pelo mórbido é uma forma de enfrentar as emoções produzidas pelo medo, segundo o especialista. ''É como se a mente experimentasse um mecanismo que nos faz sentir emoções sob controle. As cenas de terror evocam fantasmas nossos que experimentamos já quando nascemos. Desde o parto, em que o rosto do bebê é praticamente esmigalhado para que ele saia do útero, até as situações posteriores de fome, frio e solidão que ele sente e não pode expressar tudo isso são momentos de terror que o ser humano tem guardados e uma hora precisa ver simbolizados, como em um filme''.
Bons exemplos de situações em que o paradoxo entre medo e prazer são evocados, segundo o psicanalista, são os das narrativas de contos de fadas e piadas de humor negro. ''Os contos de fadas são histórias de terror: o lobo que come a vovozinha, o que quer devorar os porquinhos indefesos, a madrasta perversa... Enfim, essa é uma maneira lúdica de nos aproximarmos daquilo que mais tememos'', conclui.
E isso pode ser positivo, afinal? ''Em certa dose é preciso que a mente experimente o terror, simbolizando-o fora de si. Adultos que não entraram nos contos de fadas quando pequenos hoje sofrem de síndrome do pânico'', compara, sem deixar de lado as ressalvas. ''O terror pelo terror pode ser perigoso. Esses dias li um artigo científico contando a experiência de garotos expostos a filmes desse gênero antes de uma partida de futebol. Resultado: eles foram mais violentos em campo que os que assistiram a filmes mais leves. Não se pode banalizar a violência, isso sim é perigoso'', adverte.J.G.

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