O Tribunal de Justiça (TJ) deverá julgar amanhã, em Goiânia (GO), se a menor C.B.S., de 10 anos, poderá interromper a gravidez de quatro meses. Ela foi estuprada por dois vizinhos e, embora o juiz de Israelândia tenha garantido a ela o direito ao aborto, como está previsto no Código Penal, o caso será decidido pelo Tribunal, porque um promotor entrou com recurso.
‘‘Não se pune o aborto praticado por médico, quando a gravidez é resultante de estupro’’, justificou ontem o juiz João Geraldo Machado, referindo-se ao artigo da lei. Mas, pressionado por argumentos da igreja católica, o promotor Reuder Cavalcante Motta pediu a suspensão da autorização do aborto, defendendo ‘‘o direito à maternidade e à vida do feto’’, e tansformando o caso numa dramática polêmica.
Entre o juiz, a menina, o promotor, a lei e o tribunal está a figura do padre Luiz Carlos Loddi, de Anápolis (GO), que dirige o Grupo Pela Vida, formado por religiosos radicais que combatem o aborto.
O raro direito ao aborto, nos limites da lei brasileira, tornou-se um assunto ainda mais dramático na já miserável vida de C.B.S. Ela, que foi estuprada dia sim dia não, nos últimos três anos, por Benedito de Souza Moraes, de 65 anos, e José Benedito Afonso, de 52 anos.
C.B.S. está fora da escola, onde faz a terceira série do 1º grau, porque era motivo de piadas entre os colegas. Na semana passada, mãe e filha foram obrigadas a mudar de cidade, saíram de Israelândia para São Luiz de Montes Belos, porque na fachada do barracão onde moram havia um grupo de fotógrafos e cinegrafistas disputando seus movimentos e suas janelas. A menina percebeu que a querem mãe contra a sua vontade: ‘‘Ela não quer a criança porque já sabe que o filho que espera foi feito à força’’, disse a mãe da menina.

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