Tive medo de morrer, relata vítima
Londrina - Foi preciso muita coragem para a auxiliar de produção Fátima (nome fictício), de 35 anos, conseguir finalmente deixar as estatísticas das mulheres que sofrem caladas com a violência dos companheiros. Depois de quatro anos sendo vitimada por todo tipo de agressões cometidas pelo marido, ela finalmente buscou ajuda. "Ele passou a me agredir com facadas. Tive medo de morrer", conta ela, que percebeu que o marido era ciumento logo no início do relacionamento. "Mas foi só depois que fomos morar juntos que ele começou a me bater."
Fátima, que tem duas filhas com menos de 10 anos, chegou a ser trancada em casa por causa do ciúme doentio do companheiro. "Eu me sentia refém. No início, ele me batia apenas quando estava bêbado. Depois foi aumentando a frequência. Quando minha filha mais velha disse que eu ia acabar morrendo, tomei coragem para procurar ajuda", relata.
Ela buscou apoio no Centro de Atendimento à Mulher (CAM), onde permanece em uma casa-abrigo da instituição. Há dois meses no local, foi demitida do trabalho depois que o marido foi até lá procurá-la e assustou os empregadores. A coragem para tentar romper o ciclo de violência, segundo ela, veio também do temor pelas filhas. "Cresci vendo minha mãe apanhar do meu pai e acabei na mesma situação. Não quero isto para as meninas", afirma.
O marido atual não foi o único homem que a agrediu. Ela se mudou para Londrina para fugir do primeiro companheiro, que também costumava submetê-la a todos os tipos de ataques. "Eu nunca imaginei passar por isso duas vezes, cair de novo na mesma situação. Mas aconteceu", diz. O maior arrependimento, segundo ela, foi não ter procurado ajuda assim que começou a apanhar. "Se tivesse feito isso, hoje estaria livre."
Na vizinhança, todos sabiam da situação de Fátima, o que a deixava envergonhada e humilhada. "Me diziam para pedir ajuda, mas eu tinha medo", conta, ponderando que a interferência de terceiros poderia ter ajudado a romper antes com a história de violência. Hoje, em segurança, ela espera que o marido pague pelos atos que cometeu para nunca mais agredir mulher nenhuma. "Ele bateu em outras mulheres antes de mim e, como ninguém fez nada, começou a achar que era normal", avalia.
O semblante sofrido e a postura enrijecida indicam que ainda existe um longo caminho de traumas a serem superados, o que não a impede de fazer planos para o futuro. "Quero voltar a trabalhar, estudar e cuidar das minhas filhas. Hoje, acho que é possível ser feliz sozinha", espera.(C.A.)





