Tiroteios levam pânico a favelas cariocas
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terça-feira, 10 de setembro de 2002
Talita Figueiredo<br> Agência Folha 
Rio de Janeiro - Uma troca de tiros entre policiais militares e traficantes nos morros do Dendê e do Querosene (Ilha do Governador, zona norte do Rio) resultou ontem de manhã na morte de dois rapazes. Segundo a PM (Polícia Militar), eles seriam traficantes, mas os moradores da área negam.
Outro tiroteio, de quase 30 minutos, deixou dez policiais militares e um cinegrafista encurralados no morro do Pixuna, também na Ilha do Governador, no início da tarde.
De acordo com o comandante do 17º BPM (Batalhão de Polícia Militar), tenente-coronel Alcides de Azevedo, a polícia foi às favelas em busca de traficantes acusados de matar o cabo José Alexandre Silva de Mendonça, durante incursão policial anteontem.
Cerca de 70 PMs participaram da ação. O comandante disse que os traficantes atiraram nos policiais.
''Estávamos em uma operação no Dendê e cerca de 15 traficantes fugiram a pé e em carros para o vizinho morro do Querosene. Fomos atrás, houve troca de tiros e dois deles morreram'', disse o comandante.
Azevedo afirmou que foram encontrados com os rapazes, que não haviam sido identificados até as 19h, uma pistola e um revólver. Até o início da noite as armas não haviam chegado à 37 DP (Delegacia de Polícia) para o registro da apreensão.
A operação nos morros do Dendê e Querosene durou das 9h às 12h30. As marcas do confronto podiam ser vistas em vários pontos das favelas: buracos de bala nos muros e portas de casas. Até um passarinho, na gaiola, foi morto com um tiro de fuzil.
O pânico tomou conta de quem estava no local. André Luís Borges, 28 anos, trabalha há dois meses no programa Favela-Bairro da Prefeitura do Rio e estava com outros 15 homens pavimentando uma vila no morro. Ele teve uma crise nervosa.
''Estava desempregado e surgiu essa oportunidade, mas vou procurar outra coisa. Os tiros passaram perto da minha cabeça e comecei a chorar. Só pensava na minha família, no meu filho de um ano e meio'', disse.
No morro do Querosene, crianças brincavam com as quase 30 cápsulas deflagradas de fuzil, encontradas no local onde os dois rapazes morreram.
Um menino, que aparentava cerca de 7 anos de idade, desenhou com as cápsulas a sigla TC (Terceiro Comando), símbolo da facção criminosa que comanda o tráfico na favela. Depois, escreveram PM com elas.
O presidente da Associação de Moradores do Querosene, Melquíades Chagas Martins, 46 anos, reclamou da ação policial.
''Os meninos estavam num beco e a polícia os executou à queima-roupa. Mesmo que fossem bandidos, tinham que ser presos, não mortos'', disse.
Martins afirmou que as vítimas não trabalhavam no tráfico, mas reconheceu que não conhecia uma delas. A outra, segundo ele, era conhecida na favela pelo apelido de Bigu.
O comandante determinou que um grupo de policiais militares fosse ao morro do Pixuna, no complexo dos Bancários, também na Ilha do Governador, onde moraria um dos mortos, identificado apenas como Diógenes. Segundo um amigo, que não deu o nome, ele seria garçom.
Quando chegaram à favela, cerca de dez policiais militares e o cinegrafista Júnior Alves, 33 anos, da TV Bandeirantes, ficaram encurralados em uma laje. Os criminosos atiraram contra eles, mas não acertaram ninguém.
''Ficamos na mira dos traficantes, que atiraram uns 30 minutos na gente. Os policiais pediram reforço e fomos socorridos. Em 13 anos de trabalho, isso nunca aconteceu comigo'', disse Alves.
A PM retornou ao morro do Dendê no início da noite, quando moradores começaram a apedrejar os ônibus que passavam pela rua Paranapuã, um dos acessos à favela. Até as 19h não havia informações sobre feridos ou presos.


