IBIPORÃ - Seguranças da fazenda Nossa Senhora da Salete em Ibiporã (14 quilômetros a leste de Londrina) dispararam ontem vários tiros para o alto em represália às 22 famílias sem-terra que estão acampadas no local desde setembro do ano passado. No Pontal do Paranapanema (SP) o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem terra (MST) vai pedir à Igreja Católica que ajude a denunciar publicamente, por meio de campanhas e sermões, a violência no campo e a pressionar autoridades a desarmar a fazendeiros.
A ocorrência de disparos contra sem-terra no Norte do Paraná foi relatada pelo agricultor Pedro Bonfim, integrante do acampamento da fazenda Nossa Senhora da Salete. Ele alega que os tiros foram disparados para amedrontar as famílias que trabalhavam na lavoura. ‘‘Deram mais de 50 tiros e ameaçaram acertar na gente se não sairmos das terras’’, contou Bonfim. Apesar da ameaça os sem-terra afirmam que não vão deixar a área enquanto não houver uma definição do Incra. O grupo estaria ainda articulando a ida de trabalhadores sem-terra de outros acampamentos da região para reforçar a segurança das famílias acampadas.
‘‘Esta área está hipotecada pelo Banco do Brasil e, portanto, vamos aguardar as negociações’’. ‘‘Não temos armas de fogo, mas sabemos nos defender’’, garantiu Bonfim. Os sem-terra temiam um possível ataque dos seguranças da fazenda durante esta madrugada.

MST busca o apoio
da Igreja Católica
para denunciar a
violência no campo


O dono da fazenda Arlindo Fuganti contesta a acusação dos sem-terra dizendo que seu irmão estava na fazenda ontem pela manhã, quando os acampados chegaram próximo aos funcionários da fazenda que limpavam o café. Eles estavam armados com foices e machados. ‘‘Meu irmão disparou uns cinco tiros e pôs eles pra correr’’, relatou Fuganti.
Segundo ele, não há mais negociações com o Incra. ‘‘A situação da fazenda está regularizada e só queremos o reforço policial, que foi pedido em outubro e até hoje não chegou’’, reclamou. O proprietário garantiu ainda que não haverá ataque aos sem-terra desde que eles deixem pacificamente a área. ‘‘Vamos cumprir somente o direito de domínio da fazenda caso sejamos ameaçados’’.
Durante a tarde de ontem três viaturas da Polícia Militar foram deslocadas até a fazenda. O chefe de operações da PM de Rolândia (Norte do Paraná), Rafael de Lima, responsável pela área, informou que o envio de tropas ao local só será efetuado mediante a determinação da Secretária de Segurança Pública do Estado. ‘‘Temos conhecimento que um oficial de justiça da comarca local esteve no acampamento ontem e estamos aguardando ordens superiores para atuar’’, disse.
A fazenda Nossa Senhora da Salete tem 228 hectares cultivados com café, milho e soja. Os sem-terra ocupam uma área de 130 hectares com o cultivo de milho e arroz.
IgrejaO MST quer somar forças com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), para intensificar as invasões na região oeste do Estado de São Paulo. Essa foi a saída encontrada pelo movimento para contra-atacar a União Democrática Ruralista (UDR), que passou a responder com tiros às tentativas de ocupações de terras. O líder do MST na região, José Rainha Jr., tem uma série de encontros agendados com bispos, padres e agentes de pastorais e das (Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Amanhã, ele se reúne com o bispo-auxiliar da Diocese de Assis (SP), dom Eugênio Rixen. O bispo disse que o governo poderia evitar a violência, acelerando o processo de reforma agrária. ‘‘O governo só está fazendo um pouco porque está sendo pressionado pelas ocupações’’, disse. Sobre o pedido do MST, ele não se manifestou.

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