Tiros: as crianças por trás das estatísticas
Tiros: as crianças por trás das estatísticas16/Mar, 12:26 Por Deborah Hastings Nova York, (AE-AP) - Rebel McMahon tinha três anos. Louro, suas orelhas não haviam sequer crescido direito. Espertíssimo. Era só colocar uma revista na sua frente e apontar a figura de um avião que ele dizia qual modelo era. A polícia disse que a arma calibre 12 estava a menos de 30 centímetros de seu sedoso rosto quando sua mãe apertou o gatilho. Quando a lei chegou, o corpo de Rebel estava no sofá, suas gorduchas pernas cobertas por um lençol. "Como se ele estivesse tirando uma soneca", disse o xerife. Vincent Smith tinha 16 anos, um garoto às vésperas da vida adulta. Com sardas no rosto, apreciador de piadas bobas, um filho orgulhoso que queria ser policial como seu pai e seu tio. Ele frequentava uma escola católica para meninos, ia à missa todos os domingos e nunca havia se metido em problemas. Até uma terça-feira. A polícia diz que Vincent acordou antes do amanhecer, pegou a arma 9mm de seu pai e as chaves do carro de sua mãe e dirigiu-se para o sul. Ao pôr-do-sol do dia seguinte, ele era procurado pela morte de um policial apenas cinco anos mais velho do que ele. Num riacho próximo a um Wal-Mart, a 1600 quilômetros de casa, ele foi baleado e morto pela polícia. Estas são as crianças sobre as quais o presidente norte-americano Bill Clinton falou recentemente, não pelo nome, mas pelo número. Na média, armas matam 12 crianças por dia, informou o presidente ao país depois que a pequena Kayla Rolland de 6 anos, foi assassinada no dia 29 de fevereiro no jardim da infância onde estudava por um colega que pegou uma arma em casa. Apesar de toda a notoriedade dispensada aos tiros disparados em escolas, a maioria dos jovens que são baleados e mortos vivem e morrem na obscuridade, sem aparecer nas manchetes nacionais. De acordo com os Centros para o Controle de Doenças e Prevenção (Centers for Disease Control and Prevention), 4.223 jovens foram mortos por armas de fogo nos EUA em 1997, o último ano cujos números estão disponíveis. Os números do presidente, uma dúzia por dia, ele corrigiu seu relatório para 13, foram baseado em números do CDC. Dentro das 48 horas que marcaram o assassinato de Kayla que recebeu tanta atenção, muitas outras crianças foram mortas. Veja duas dessas histórias: Edith McClesky vivia numa região bastante remota, mesmo para os padrões rurais do Texas. Numa rua barrenta, através pinheiros entrelaçados, há uma casa cinza com piso de madeira compensada. Neste lugar, uma mãe desempregada criava seus filhos. Eles viviam na periferia de Shelbyville, cuja população é de 1.100 pessoas, onde o Texas invade o terreno da Louisiana. E sobreviviam com cupons de comida e um cheque de suporte destinado ao membro mais novo da família. O pai de Rebel McMahon Tommy McMahon, vivia no norte, em Tehana e mandava US$ 280 por mês. No mesmo dia em que Kayla Rolland foi baleada na Michigan's Mount Morris Township, McMahon conquistou a custódia de seu filho numa sala da corte do condado de Shelby. O juiz concordou com o pai de Rebel: McClesky era negligente, não tinha carro, vivia em isolamento e mantinha armas carregadas em sua casa, uma violação à sua condicional, já que havia sido acusada por atirar com uma arma contra outro ex-marido, Dennis Ray Moore, o pai de Sunnni, 11 anos, e Todd, 15. Era Sunni quem dava banho em Rebel e contava-lhe histórias. Era Todd quem brincava com ele. A mãe não parecia muito interessada, disse Grover Russell, um procurador apontado para proteger os interesses de Rebel durante a audiência. "Nessas redondezas, muitas famílias vivem em casas velhas como essa", disse Russsel. "Mas aquelas crianças estavam sob a própria sorte". McClesky recebeu a ordem de deixar Rebel no dia 2 de março. Naquela tarde, de acordo com um agente local da lei, ela ligou para o promotor que a representava na disputa pela custódia. "Eu matei meu filho", teria dito. Os representantes demoraram cerca de uma hora para chegar à isolada cabana. McClesky estava esperando do lado de fora, disseram eles, no meio de galhos emaranhados e videiras mortas que constituíam seu jardim fronteiriço."Ele está no sofá", disse ela. McClesky foi detida sob suspeita de ter matado seu próprio filho. Desde que foi para trás das grades, dizem as autoridades, ela recusa-se a responder qualquer pergunta. Sunni e Todd estão com parentes na Louisiana."Neste caso", disse a promotora de acusação Lynda Russell, "a morte é a única justiça". O caso de Vincent Smith também é aparentemente inexplicável. Para a família e os amigos, a resposta pode ser apenas esta: Vincent Smith foi para a cama como um garoto exemplar de 16 anos, mas acordou como outra pessoa."Eu só quero que vocês saibam que o mesmo garoto que puxou aquele gatilho não é o mesmo que nós criamos e amamos. Alguma coisa nele mudou e apenas Deus sabe o que é", escreveu seu pai, o tenente da polícia Thomas C. Smith, de Buffalo, Nova York. Smith estava escrevendo para a família do sub-xerife Todd Widman, 21 anos, que seu filho supostamente baleou e matou em Hiawatha, Kansas, dois dias depois de ter fugido de casa. Vinnie Smith havia sido coroinha. Na Igreja Católica da Sagrada Família, ele cortava a grama e removia a neve. Ele adorava seu pais e seu tio e queria ser um policial, como eles. Numa noite de segunda-feira, Vinnie preparou chá para seus pais. Então, foi dormir. O que ocorreu com ele é um mistério. Seus pais, em luto, não entendem. O mesmo acontece com seus colegas de sala da Bishop Timon-St. Jude High School. "Ele era uma criança realmente inocente. Ele não era capaz sequer de se levantar por si só. Ele pirou", disse seu amigo Ryan O'Neill. Seus pais, irmãos mais velhos e sua irmã procuraram por ele durante um dia e uma noite antes de preencher um formulário de desaparecimento. Neste horário, Vinnie estava em algum lugar entre Buffalo e Kansas.Vinnie não sabia dirigir, afirmaram seus pais. Mesmo assim ele foi até o noroeste do Missouri no Ford Tempo de sua mãe, onde abandonou o carro e começou a pedir carona. Na quarta-feira, por volta das 17h45, um motorista do Kansas reclamou que um mendigo estava andando na estrada. O xerife do condado de Brown despachou Widman, um recruta que estudava justiça criminal na universidade Washburn, em Topeka. Widman nasceu e foi criado em Hiawatha, cuja população é de 3.600 pessoas. Sua mãe, Brenda, é secretária da escola secundária. Sua irmã, Jill, está no penúltimo ano de estudo no mesmo estabelecimento de ensino. Widman dirigiu por quase uma hora antes de localizar Smith andando com dificuldade pela margem oeste da cidade, carregando uma mochila de acampamento. O xerife Lamar Shoemaker disse que Smith sentou-se no banco da frente do carro de Widman e não foi algemado. O que aconteceu entre os dois é um mistério. "As duas partes que sabiam não estão mais aqui", disse Shoemaker. Widman comunicou, por rádio, que havia sido baleado. Ferido duas vezes, ele morreu no hospital. Muito depois do anoitecer, delegados e policiais seguiram a pista de Smith até um riacho numa floresta próxima ao Wal-Mart. As luzes dos helicópteros iluminaram o local. De acordo com agentes da lei, Smith encolheu-se no riacho e então pulou e começou a atirar. Um policial do Kansas o atingiu no peito. No seu funeral, um amigo o descreveu como o garoto que ele conhecia: um filho educado e carinhoso. Um gentil contador de piadas tolas. Um menino que soava bom demais para ser verdadeiro. "A questão que está agitando nossa comunidade e uma comunidade a mil milhas daqui não pode ser respondida hoje", disse o reverendo William Bigelow. "E provavelmente não será respondida neste lado da divina Jerusalém". Nota do editor - Contribuíram para esta matéria John Milburn na cidade do Kansas, Megan Stack em Houston, Carolyn Thompson em Buffalo e Kelly Wiese em Topeka.





