Simpático, este réptil da ordem dos quelônios, carapaça alta, cabeça vaivém, que gosta de se alimentar de frutos. Ora, direis, em pleno Dia dos Pais e da comemoração da instalação dos cursos jurídicos no País, vem o colunista com essa história de jabuti?
Peço a concessão de um porém. Fiquei sensibilizado com a história de um jabuti que, em pleno fogo cerrado da batalha de cada dia entre traficantes do Morro do Cantagalo, em Copacabana, foi atingido por uma bala perdida. O projétil penetrou no casco e paralisou as patas traseiras. Uma bondosa veterinária, Eliane Jessula, examinou atentamente e deu um jeito: instalou duas rodinhas, daquelas de mesa onde ficam aparelhos de TV, na parte de baixo do jabuti, para ele conseguir deslizar. A operação teve pleno êxito.
Acho que você, a essa altura comovido pelo meu porém, pode pensar comigo sobre desdobramentos dessa incrível história do jabuti. Uma veterinária amorosa e apaixonada pela profissão pensou, pensou, e encontrou a solução que não está escrita em nenhum compêndio de medicina veterinária. Criativa. Competente. Profissional. Nem tudo está escrito: tantas vezes somos atingidos por equivalências que nos sangram o coração ao contemplar tantos absurdos. Diante de almas amputadas ou fragmentadas, podemos se nos debruçarmos com afinco sobre o problema dar um jeito como Eliane fez com as rodinhas para substituir as patas traseiras imobilizadas.
No Dia dos Pais, oportuno lembrar de homens que pensaram além da cadeia biológica e foram verdadeiros pais da humanidade, com seus inventos, suas descobertas. São tantos: Fleming, pai da penicilina; Beethoven, pai das nove sinfonias; Freud, pai da psicanálise; Gandhi, pai do pacifismo; Gutenberg, pai da imprensa; Santos Dumont, pai da aviação...
Eles, e outros da lista sem fim, foram a rigor pais de idéias maravilhosas. Conseguiram fazer do mundo um lugar melhor. No mesmo dia em que comemoramos o dia dedicado a eles, lembramos do início dos cursos de Direito no Brasil, na cidade de Olinda.O professor de filosofia José Arthur Giannotti, da USP, diz que as práticas dos juristas ''são acompanhadas, em geral, de uma prosa eivada de pressupostos filosóficos''. Mas, denuncia ele, há uma confusão entre moralidade subjetiva e objetiva. Considera, então, que ''o preço da justiça é a constante reforma das instituições judiciárias''.
Felicidade para os pais que amam seus filhos e por isso são amados por Deus (Salmos, 103.13). As normas do Direito precisam ajudar a distribuir a justiça. E o nosso jabuti atingido por um projétil de arma de fogo mostrou tenacidade de mesmo sob tiroteio atravessar campo minado e perigoso. Também devemos ser assim. E sobreviveu, como se jabuti também pudesse usar muleta, graças à veterinária que em momento algum quis dizer que ''isso não tem jeito''. Aliás, ela é mãe de dois filhos, uma menina de 14 e um menino de 11 anos. Os dois já querem adotar o jabuti ferido. Pois é, existe esperança. Ainda.

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