Show de realidade: Pedro Bial, apresentador da Globo, estava dirigindo para a festa de encerramento do ‘‘Big Brother Brasil’’ quando foi fechado num trecho estreito da Avenida Niemeyer e assaltado. Só não morreu porque a arma do bandido falhou quando o gatilho foi acionado. Bial, que antes tomou uma coronhada, teve que fazer uma interpretação de sobrevivência, isto é, fingir-se de morto.
Este sim, foi um reality show. Deu audiência trancar as pessoas num determinado recinto para surpreendê-las com aquele comportamento de vários ratos em gaiolas, que psicólogos adoram estudar em busca das explicações sobre o modo de ser. Bial é enorme, muito alto. Andando com ele, pelo Rio de Janeiro, quando dei uma colher de chá para a Globo entrevistar o cabo Anselmo, aquele da rebelião dos marinheiros que ajudou a deflagrar o golpe de 1964, que eu havia localizado com exclusividade e transformado em livro, percebi que é quase impossível para ele passar desapercebido. Entretanto, os bandidos que o assaltaram estavam de olho apenas no seu carro. Nada mais. Pois é: o considerado Bial escapou da morte, conheceu a realidade além das matérias de TV e pode até comparar: certas coisas dos nossos centros urbanos são piores do que aquelas que acontecem em muitas zonas de conflito internacionais. E são mesmo. Pior: entre nós, lamentavelmente, muita coisa somente se repercute se a vítima tiver algum tipo de destaque. Do contrário, vai de imediato para a valeta comum do esquecimento.
Aliás, o caso Bial aconteceu no Rio, onde os índices de criminalidade crescem e mesmo assim essa questão, vital para a população, ficou para a última hora nessa esdrúxula transição do Governo Anthony Garotinho/Benedita da Silva. Com efeito, no jogo de braço político, mise-en-scSne para a platéia atônita, o que interessa para a sociedade ficou em último plano. Este, o drama de sempre, entre nós: a política de baixo nível sobrepondo-se ao que realmente interessa. Aliás, o tão competente e inteligente sociólogo Eduardo Luiz Soares, da equipe de transição de Benedita, também entrou no jogo que muda de repente tantas pessoas: ex-subsecretário da Segurança de Garotinho (circunstância omitida quando se transformou em ferrenho opositor da Polícia), considerou-se ‘‘ameaçado’’ pela tal banda podre e buscou exílio em Nova York, onde o mar não anda para peixe. Voltou, como se nada tivesse acontecido, e aí está de novo. Amnésia total. Sinceramente, prefiro Soares como finalista ao Prêmio Jabuti de Literatura com seu bom livro ‘‘Meu Casaco de General’’.
Mas você quer reality show melhor do que tudo isso junto? Tiremos, em síntese, duas lições que estão muito difíceis de ensinar: 1- casos graves são importantes não só para famosos, mas também para o mais humilde passante das ruas; 2- a pífia política prefere jogar fumaça para ninguém ver, como acontece agora em Belém, a cidade onde Jesus nasceu. Discordemos de tais absurdos, com todas as nossas forças.

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