Tintin com 70 anos permanece um inocente controverso
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quinta-feira, 04 de fevereiro de 1999
Por Alistair Thomson, da REUTERS (assinatura obrigatória) 
Bruxelas (AE-REUTERS) - Ele raramente bebe, nunca flerta com mulheres e seu melhor amigo é um pequeno terrier branco. Mas 70 anos depois de sua primeira aparição, o determinado repórter belga Tintin ainda prova ser popular - e controverso - como sempre.
O debate gerado pelo personagem de quadrinhos septuagenário - criado pelo belga Georges Remi sob o nome de Herge, sugere que há mais em Tintin do que longas histórias e o topete que é sua marca registrada.
A assembléia nacional da França irá debater neste mês a política do filho adotado pelo país, perguntando se ele era de esquerda ou de direita.
O debate, que inspirou várias contribuições para as seções de cartas do London Times, segue o Festival Internacional de Tiras Cômicas na cidade francesa de Angouleme que aconteceu no final de janeiro. O festival, realizado no Centro Nacional de Tiras Cômicas e Vídeo, transformou Angouleme na Meca dos entusiastas dos quadrinhos francofônicos.
O deputado conservador local Dominique Bussereau será um dos dois políticos que defenderão Tintin no debate da assembléia nacional como auxiliar dos oprimidos apesar de algumas atitudes politicamente incorretas. "É extraordinário", disse Etienne Pollet, editor das séries de Tintin da editora Casterman. "Esta discussão acontece desde a Segunda Guerra Mundial. Apenas mostra a importância de Tintin no mundo francofônico".
No centro da batalha pela alma política de Tintin está a primeira e claramente anticomunista história de Tintin e as dúbias filiações de Remi durante a guerra. Ele foi preso como colaborador nazista depois da libertação das Bruxelas em 1944. Os quadrinhos regulares de Herge contribuíram para o sucesso do jornal diário belga pró-nazista e em língua francesa Le Soir durante a ocupação germânica na Segunda Guerra Mundial. Durante os anos da guerra Herge deixou suas referências políticas de fora dos quadrinhos, disse Pollet. Mas no final da guerra, liberais e esquerdistas examinado os primeiros livros encontraram traços de atitudes de direita, o que eles dizem ter iniciado a questão sobre a política enrustida das histórias.
A primeira história, "Tintin na Terra dos Soviéticos", que passou a ser publicada em janeiro de 1929 no semanário católico de direita Le Petit Vingtieme, era um velado ataque ao Stalinismo, clamando que a industrialização da Rússia era uma hipocrisia. A história repetiu muito da propaganda anti-soviética daquele tempo, mostrando fábricas russas queimando coisas para darem a impressão de estarem produzindo e um encontro político sendo mantido sob a mira de armas para assegurar o apoio para os candidatos bolcheviques. Herge mais tarde desautorizou a história, que nunca foi traduzida, e fora uma edição de algum colecionador, nunca foi propriamente aceita como a primeira aventura de Tintin até a editora Casterman publicar uma edição especial de aniversário de 70 anos em dezembro.
O semanário comunista francês LHumanite Hebdo fez um gesto para reabilitar Tintin em dezembro ao reimprimir pedaços do "Na Terra dos Soviéticos", que antes havia menosprezado, afirmando tratar-se de "uma caricatura nojenta". O LHumanite sugeriu que alguns elementos da história podem ter sido baseados em fatos verdadeiros, dado que a história foi inspirada nos escritos de um diplomata que Herge conhecia, que teve experiências de primeira-mão com a situação soviética. Mas o LHumanite ainda mantém Tintin como "um direitista e um agente do imperialismo", mesmo que isso não seja sua culpa.
A segunda aventura de Tintin, desta vez no Congo, na época em que ainda era uma colônia belga, estava tão repleta de esteriótipos raciais e preconceitos coloniais, que Herge mais tarde mudou partes inteiras, alterando a cor da pele de alguns personagens. Pollet argumentou que Herge não era político, e suas histórias meramente refletem as atitudes que prevaleciam naquele tempo. "Tintin não é racista. Tintin no Congo não é racista. Ele é paternalista, mas isto para o governo e a sociedade daquela época", disse Pollet.
As últimas aventuras de Tintin mostram um lado diferente de Herge, dizem seus defensores, incluindo um crescente interesse pela filosofia oriental que aparece nas páginas de "Lotus Azul" e depois em "Tintin no Tibet". Este livro, escrito no final dos anos 50, mostra Tintin aparentemente abraçando os ideais de uma irmandade universal enquanto resgata Tchang, um personagem inspirado num amigo real de Herge, Tchang Tchong-jen. Os críticos citam similaridades com o trabalho de Proust e dos Irmãos Marx em "A Esmeralda de Castafiore", publicada em 1963. "Tintin e os Picaros", o trabalho final de Herge - e de acordo com seu desejo a última história de Tintin - traz o círculo completo da história do colonialismo no Congo, com o destemido repórter se juntando à causa de um povo sul- americano oprimido.
Seja qual for a política por traz das histórias de Tintin - e o debate parece que vai continuar - sua grande popularidade é inquestionável. Com cerca de 200 milhões de volumes vendidos, as histórias foram traduzidas para 58 línguas diferentes, e ainda vendem mais de dois milhões de cópias anualmente, disse Pollet. Realmente, a fama de Tintin no mundo francofônico é tamanha que diz- se que o ex-presidente francês Charles de Gaulle certa vez afirmou que em termos de fama internacional Tintin era seu único rival.


