Pensando em fazer uma tatuagem? Se a vontade for irresistível, prefira estampas em preto. A recomendação vem da hepatologista Deborah Crespo, doutora em Medicina pela Universidade Estadual do Pará e diretora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Hepatologia da Amazônia. Após participar de um congresso sobre a doença em Viena, na Áustria, ela chegou a uma conclusão perturbadora: até a tinta usada pelos tatuadores pode transmitir o vírus da hepatite C, perigosa inflamação do fígado.
  ‘‘Entre os tatuados contaminados, a incidência do vírus C é muito maior nas pessoas que possuem tatuagens coloridas. A explicação é simples: quanto mais cores tem o desenho, mais recipientes diferentes terão contato com a agulha e, logo depois, com o sangue da pessoa. Quando um desenho tem apenas um pequeno detalhe em uma determinada cor, o pote de tinta geralmente é aproveitado para um outro trabalho’’, analisa a médica.
  A constatação da especialista coloca em xeque a antiga crença de que usar agulhas descartáveis é uma medida suficiente para proteger tatuados contra possíveis infecções. ‘‘O vírus C é extremamente resistente ao ambiente. Ele pode permanecer vivo nas tintas por quatro dias. Para efeitos de comparação, o vírus da Aids suporta apenas 12 horas fora do corpo.’’
  Ainda que o uso de agulhas descartáveis não seja capaz de garantir a segurança absoluta de quem decide estampar o próprio corpo, a precaução não deve ser abandonada. Vale citar a situação de Oklahoma, único estado norte-americano em que o procedimento é proibido. Autoridades locais tentam legalizar as salas de tatuagem como forma de impedir o avanço da hepatite C, já que estabelecimentos clandestinos muitas vezes não adotam nem sequer as noções básicas de higiene. Desde 2000, Oklahoma registrou 7 mil novos casos de hepatite C, um aumento de 78%.
  Segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), há 170 milhões de infectados pelo vírus C no planeta. Por ano, a doença mata cerca de 500 mil pessoas. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia, João Galizzi Filho, nos Estados Unidos, o número de mortes provocadas por hepatite C já supera o de causadas pelo vírus da aids. ‘‘Hepatite dá menos ibope do que aids. Nota-se isso na distribuição de verbas para campanhas de prevenção. Em 2005, vieram R$ 14 milhões para as campanhas sobre aids e apenas R$ 1 milhão para as ações contra a hepatite’’, compara o médico.
  No Brasil, a doença já atingiu cerca de três milhões de indivíduos. Destes, 40% não sabem como contraíram o vírus. A lógica da resistência elevada do vírus pode ajudar a desvendar este mistério. ‘‘Normalmente, só o compartilhamento de seringas e agulhas é visto como um comportamento de risco. Mas até quem usa drogas não injetáveis está sujeito à doença. Usuários de cocaína, quando apresentam feridas nas fossas nasais, correm riscos de contrair o vírus por meio das cânulas’’, exemplifica Deborah. Na dúvida, é recomendável fazer testes clínicos periódicos, já que a doença pode levar até três décadas para se manifestar.

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