Timorenses recebem acordo com cautela
Dili, Timor Leste, 12 (AE-REUTERS) - Depois de 23 anos de uma administração brutal e sangrenta, a Indonésia concordou em dar aos timorenses aquilo que por tanto tempo eles lutaram - um voto sobre o seu futuro. Mas havia pouca celebração hoje (12) na ex- colônia portuguesa.
Ontem, na sede das Nações Unidas em Nova York, Lisboa e Jacarta concordaram que a população de Timor Leste decidirá no voto se aceita o plano que lhe concede ampla autonomia em relação à Indonésia. O acordo foi anunciado pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan.
Em Dili, capital do Timor Leste, os residentes receberam a informação de Nova York com cautela. Líderes pró-independência expressaram ceticismo e legalistas pró-Jacarta demonstraram temor numa possível volta da guerra civil.
O líder independentista Xanana Gusmão comemorou a realização do voto, mas lembrou que vários detalhes do acordo ainda não foram divulgados. "É o que nós tanto procuramos - um processo de consulta deocrático", disse ele. "Mas não sabemos nada ainda porque não conhecemos os detalhes de seu mecanismo".
Os detalhes logísticos da votação, da qual poderiam participar também os timorenses que moram em outros países, ainda não foram fechados pelos dois países que discutem o futuro do Timor Leste.
A data da consulta e seus respectivos procedimentos deverão ser determinados no próximo mês em Nova York, por representantes de Portugal, que governou o território até 1975, e Indonésia, que o anexou no ano seguinte, sem o reconhecimento da ONU.
O líder da resistência e Prêmio Nobel da paz, José Ramos- Horta, que se auto exilou na Austrália, afirmou hoje que 90% dos timorenses rejeitariam o poder indonésio sobre o território caso lhes fosse permitida uma escolha livre sem a sombra de uma forte presença militar.
"As Nações Unidas têm que estar presente, uma força policial tem que estar presente... para garantir que não haja coerção", disse Ramos-Horta em Sydney.
Por outro lado, o líder pró-Jacarta Filomeno de Jesus Hornay acredita que o voto direto poderia dividir ainda mais o já traumatizado território. "O voto direto resultará numa situação onde um grupo vencerá e um outro perderá", afirmou ele à Reuters.
O anúncio de Annan foi precedido de dois dias de conversações entre os ministros do Exterior da Indonésia, Ali Alatas, e de Portugal, Jaime Gama.
Segundo o plano de autonomia, a Indonésia continuaria controlando a política externa, a segurança e a economia de Timor Leste.
Em janeiro, porém, o governo de Jacarta fez um anúncio surpreendente, dizendo que oferecerá a independência plena aos timorenses se eles rejeitarem o plano de autonomia.
Os procedimentos da votação têm sido uma fonte de disputa entre a Indonésia e Portugal. Jacarta descartou a realização de um referendo direto, mas aceitou o que chamou de "consulta democrática".
As autoridades indonésias alegam que um referendo seria muito pesado e ineficiente e desencadearia uma onda de violência.





