Timor espera para mais violência depois do resultado do referendo
Dili, Timor Leste, 03 (AE-AP) - Timor Leste se preparava para mais violência com o anúncio, que deverá ser feito amanhã (04, pelo horário local), do resultado do plebiscito de segunda-feira sobre o futuro da província indonésia. Espera-se que a consulta popular, da qual participaram mais de 98% dos 450 mil eleitores timorenses, resultará favorável à independência do território. No entanto, os milicianos pró-Jacarta vêm lançando uma verdadeira campanha de terror contra os que querem cortar os laços de Timor Leste com a Indonésia.
As milícias anti-independência ocuparam hoje várias cidades e vilarejos timorenses e a polícia retirou dezenas de funcionários da Missão das Nações Unidas em Timor Leste (Unamet) das localidades de Maliana e Ermera, sitiadas pelos paramilitares. Quatro timorenses funcionários da ONU foram mortos e seis estão desaparecidos desde a realização do plebiscito e a organização informou que outros membros da missão estão em perigo.
Uma nova onda de violência também se registrou na capital do território, Dili, desde o início da contagem dos votos do histórico plebiscito. O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, planejava anunciar o resultado da votação às 21 horas de hoje em Nova York (22 horas de Brasília). E funcionários da organização anunciariam o resultado simultaneamente em Dili, às 8 horas de amanhã. As redes de TV portuguesas adiantaram hoje que os timorenses votaram amplamente a favor da independência da Indonésia. Jornalistas da TV estatal RTP e da privada SIC em Dili disseram que entre 70% e 90% dos eleitores rejeitaram a oferta de Jacarta de um status especial com ampla autonomia para a ex-colônia portuguesa, invadida em 1975 pela Indonésia. Ainda de acordo com os jornalistas portugueses, um tiroteio podia ser ouvido nas proximidades da região do porto. Segundo a SIC, pelo menos 36 pessoas foram mortas hoje durante choques entre separatistas e milicianos.
"As pessoas correm para salvar suas vidas. Há um grande pânico e os tiroteios podem ser ouvidos cada vez mais próximos"
disse por telefone à agência Associated Press um morador de Dili. "Eles estão queimando tudo. Não respeitam nada. Estão fora de controle. Estão loucos", disse um dos 54 funcionários da ONU que foram retirados de Maliana e levados para Dili. "Os policiais indonésios não estão fazendo nada para acabar com a violência."
A missão da ONU em Dili manifestou-se "indefesa" diante da incapacidade das forças de segurança indonésias de restabelecer a ordem. Na quarta-feira a sede da missão foi sitiada pelos milicianos e só depois de várias horas os policiais indonésios entraram em ação.
Desde o começo do ano, os militares indonésios vêm tentando acabar com a possibilidade da independência de Timor criando e armando as milícias. Acredita-se que alguns desses grupos respondam diretamente a oficiais indonésios. A polícia - conhecida por sua falta de competência e profissionalismo - foi posta diante de uma situação impossível, com a tarefa de controlar os paramilitares armados.
O ministro da Defesa da Indonésia, general Wiranto, que deverá chegar amanhã a Dili para o anúncio do resultado do plebiscito, anunciou hoje o envio de mais 1,4 mil soldados para restabelecer a ordem em Timor Leste. Pressionado pela comunidade internacional e pela escalada da violência, o governo indonésio, na quinta-feira e pela primeira vez, considerou a possibilidade de aceitar o envio de uma força de pacificação a Timor. Jacarta havia se responsabilizado pela segurança no território antes e por um certo período após o plebiscito durante uma reunião com Portugal em maio.
De acordo com a ONU, cerca de 50 mil pessoas já deixaram o território nos últimos meses e as Forças Armadas indonésias preparavam hoje um plano de emergência para retirar até 250 mil pessoas de Timor se piorar a situação.





