Lisboa, 29 (AE) - O plebiscito que decide se Timor Leste vai ser independente é um dos últimos episódios do império colonial português. Um total de 451.792 timorenses vão responder à pergunta: "Aceita a autonomia especial para Timor-Leste proposta, dentro de Estado unitário da República Indonésia"?
Caso o não vença, virá a independência do pequeno território, com 14.600 quilômetros quadrados e cerca de 800.000 habitantes, com enormes reservas de petróleo, que ainda não estão exploradas - a maior parte da população vive da agricultura, especialmente de café trigo e milho.
Realizado sob supervisão da ONU, o plebiscito promete acabar com um conflito que dura há 24 anos. A invasão indonésia de Timor Leste ocorreu em 7 de dezembro de 1975, no dia em que um grupo de timorenses proclamou a independência do território.
A declaração de independência de 1975 foi resultado da situação de desagregação das forças armadas portuguesas nas antigas colônias, uma consequência da Revolução dos Cravos, realizada no ano anterior. Na época, uma das principais palavras de ordem gritadas nas ruas portuguesas era: "Nem mais um soldado para as colônias".
Apesar da reação do conselho e segurança da ONU, que em 22 de dezembro - 15 dias depois da invasão - adotou uma resolução exigindo a retirada imediata das forças indonésias, a ocupação manteve-se e, em 17 de julho de 76, Timor Leste foi anexado oficialmente sendo considerado como a 27ª província da Indonésia.
Na época, a anexação foi apoiada diretamente pela administração norte-americana. Dentro da divisão do mundo em blocos, a teoria defendida pelo secretário de Estado Henry Kissinger era de que a invasão indonésia impediria o estabelecimento de um regime pró-soviético na ilha. Os indonésios afirmavam que Portugal tinha abandonado a parte oriental da ilha, deixando-a sem governo. Mesmo assim, apenas a Austrália reconheceu oficialmente a ocupação.
A invasão indonésia ajudou a que o país se tornasse um nome frequente na lista dos violadores dos direitos humanos. Em abril de 1977, os indonésios reconheceram que 50.000 pessoas tinham sido mortas após a invasão. Até hoje, os cálculos das organizações humanitárias internacionais referem que o total de mortos como resultado da invasão indonésia chegue a 200.000.
O movimento guerrilheiro Falantil - Forças Armadas de Libertação de Timor, formado ainda durante o período de dominação portuguesa - vem conduzindo uma luta contra os indonésios desde agosto de 1976. A primeira tentativa de realização de um acordo de paz foi em 23 de março de 1983. No entanto, no final de agosto desse ano, os combates foram retomados.
A situação só começou a mudar depois da queda do bloco soviético, com o fim da lógica da divisão do mundo em áreas de influência dos principais superpoderes. A pressão internacional surgiu depois da divulgação das imagens do massacre realizado em 12 de novembro de 1992 no cemitério de Santa Cruz, em Dili - a capital do território - em que cerca de 200 pessoas que acompanhavam um funeral foram assassinadas por militares indonésios.
Um dos sinais da pressão internacional sobre a Indonésia foi a atribuição do prêmio Nobel ao bispo D. Carlos Ximenes Belo e ao dirigente do Conselho Nacional da Resistência Timorense no exterior, José Ramos-Horta, em 1996. No mesmo ano, em 27 de dezembro, o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, revê a posição de seu país, declarando-se favorável à independência.
Mas o principal motivo para os indonésios mudarem de posição foi a crise que o país atravessa, pior do que a brasileira, que torna impraticável manter o contingente avaliado em cerca de 30.000 militares permanentemente colocados no território. No entanto, dentro do governo indonésio existem forças que pretendem manter Timor Leste a qualquer custo.
Em 5 de maio, um acordo entre Portugal e a Indonésia decidiu pela realização do plebiscito, marcando a data para 7 de agosto. Até agora, o plebiscito foi adiado duas vezes - para 22 de agosto e para o dia 30.
Como forma de intimidar os independentistas, os militares indonésios organizam milícias armadas, que através da violência procuram desestabilizar e inviabilizar a consulta. Aldeias nas regiões de maior implantação dos independentistas foram destruídas e milhares de pessoas acabam deslocadas de suas residências, o que deve impedir de votar.
Em Portugal, a questão é considerada como tema de política interna. Na semana passada, um dos principais temas da campanha eleitoral para o cargo de primeiro-ministro foi a situação na ilha.
O líder do principal partido de oposição, José Manuel Durão Barroso, acusou o governo por não ter adiado o plebiscito sobre a autonomia, dizendo que o ato eleitoral vai ocorrer sob a intimidação das milícias organizadas pelos militares e serviços secretos indonésios.

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