Texto de revisão da Igreja não fala de inquisição
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domingo, 19 de março de 2000
Por Roldão Arruda 
São Paulo, 20 (AE) - Já está circulando entre os bispos brasileiros o texto que servirá de base para a carta que a Igreja Católica divulgará em abril, por ocasião dos 500 anos de evangelização. O documento tem 18 páginas e em sua primeira parte propõe-se a fazer uma revisão histórica da ação católica, reconhecendo erros em relação aos índios e aos negros. Curiosamente, porém, o texto ignora tudo que se refere ao Santo Ofício da Inquisição - o tribunal eclesiástico instituído para investigar e punir crimes contra a fé católica, que funcionou em terras brasileiras durante 242 anos, entre 1579 e 1821. Nesse período a Inquisição portuguesa perseguiu ateus, protestantes, homossexuais, bígamos e, acima de tudo, judeus que viviam no Brasil.
Ao ignorar a ação do Santo Ofício, o anteprojeto da carta fica aquém das manifestações do papa João Paulo II. Em mais de uma ocasião o pontífice já pediu perdão pelos métodos dos inquisidores, que chegavam a torturar, açoitar, enforcar e até queimar os acusados. Segundo estudiosos consultados, é uma omissão grave. "É lamentável", disse a historiadora Anita Novinsky, professora da Universidade de São Paulo (USP), especialista em estudos sobre a presença dos judeus no Brasil.
Cristãos-novos - Segundo a professora, cerca de 1.500 judeus foram presos no Brasil e enviados para os tribunais da Inquisição portuguesa. Eram principalmente cristãos-novos, nome dado aos judeus que se convertiam ao catolicismo para escapar das perseguições. O número exato de perseguidos está sendo apurado por uma equipe de pesquisadores coordenada por Anita e será divulgado nos próximos meses, no livro "Prisioneiros Brasileiros na Inquisição". "Podemos dizer que houve extermínio de judeus", diz ela.
Ainda segundo informações da historiadora, a ação autoritária da Inquisição criou um clima de terror e de obscurantismo cujas influências estendem-se até nossos dias. Uma parte do clima ao qual ela se refere pode ser visto na minissérie "A Muralha", da TV Globo. Dona Ana, uma das principais personagens da trama, interpretada por Letícia Sabatella, é uma judia convertida, cuja família sofre nas mãos dos inquisidores.
O jornalista Alberto Dines, autor do livro "Vínculos de Fogo", cujo tema é a saga dos judeus vítimas da intolerância religiosa, também critica a omissão no texto da CNBB. "É frustrante", escreveu ele em artigo publicado no Jornal do Brasil, quando soube que o episcopado pediria perdão aos índios e aos negros, sem referir-se à Inquisição. "A atuação da Inquisição portuguesa no Brasil continua estudada de forma incidental. E o resultado são lapsos como esse da CNBB." Na opinião de Dines, os bispos brasileiros deveriam pedir perdão à sociedade pelos erros cometidos pela Inquisição.
O texto enviado aos bispos não é definitivo. Escrito por uma comissão formada por bispos e padres ligados à CNBB, será discutido e reescrito durante a próxima assembléia do episcopado
em Porto Seguro, no fim de abril e início de maio. Segundo um de seus autores, o padre Manoel de Godoy, a ausência de referências à Inquisição não significa que ela foi esquecida. "Na verdade, é impossível abordar todas as questões num texto tão sucinto", disse ele. "O documento final será ainda mais curto e tratará não apenas do passado, mas, principalmente, do futuro." Mas, diante das críticas, o padre admite a possibilidade de o texto referir-se à Inquisição: "Vamos enviar a sugestão aos bispos, cabendo a eles decidir."


