A Comissão Estadual dos Direitos Humanos da Assembléia Legislativa começou a ouvir ontem as primeiras testemunhas do conflito ocorrido no último dia 2, na BR-277, em Campo Largo, entre integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e policiais militares. Durante o confronto, o agricultor Antonio Tavares Pereira, 38 anos, morreu vítima de uma hemorragia aguda ocasionada por disparo de arma de fogo. Mais de 120 sem-terra fizeram exames de lesões corporais.
Foram ouvidos os sem-terra José Antonio Pereira e Abrão Mateus, além do assessor especial de Políticas Fundiárias do Estado, Antonio Carlos da Costa Coelho. ‘‘Vamos ouvir todas as pessoas que precisarmos para sabermos se houve mesmo violência e abuso por parte da Polícia Militar’’, destacou o deputado estadual Edson Praczyk (PL), presidente da comissão.
Abrão Mateus explicou o motivo que levou os assentados a seguir até Curitiba. ‘‘Queríamos a liberação de verbas para os assentamentos, que estão sem água e energia elétrica’’, disse. Ele negou que tenha sido combinado qualquer tipo de invasão de prédio público: ‘‘Ainda não tínhamos uma agenda. Mas nossa reivindicação seria feita junto ao Incra.’’
Mateus contou que esteve no primeiro tiroteio. Ele teria recebido tiros na perna e os estilhaço – de arma com balas de chumbo – não puderam ser retirados. ‘‘As balas ficaram alojadas na minha perna. Os policiais atiraram sem qualquer explicação’’, disse.
O agricultor José Antonio Pereira contou que não recebeu um arranhão durante o conflito na BR-277. Mas afirmou ter apanhado de policiais militares dentro de uma viatura policial. ‘‘Eles queriam que eu confessasse que dei um tiro na perna de um PM. Eu não fiz isto. Nem vi arma nenhuma. Não iria confessar’’, disse. Pereira não soube dizer o nome do PM, mas segundo relatou, era moreno, baixo e gordo.
O assessor especial do Estado, Antonio Carlos Coelho, disse que o governo tinha informações precisas de que os sem-terra iriam invadir prédios públicos e a PM recebeu a ordem de não permitir que isto acontecesse. Ele confessou que foram usadas armas de fogo e que pelo menos um tiro foi disparado. ‘‘Isto está confirmado’’, disse, lembrando da conclusão do exame de balística feito no projétil encontrado no corpo de Antonio Tavares Pereira. Coelho sustentou a versão de que os militares teriam reagido à violência do próprio MST.
Esta foi a segunda reunião da Comissão de Direitos Humanos, que já agendou uma nova tomada de depoimentos para terça-feira, às 10 horas. Deverão ser ouvidos o coronel Donizete Ribeiro (que comandou a operação) e o deputado estadual Irineu Colombo (PT) que esteve no local para tentar uma negociação entre o MST e a PM.

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