São Paulo, 10 (AE) - A principal testemunha do assassinato do adestrador de cães Edson Neris da Silva, de 35 anos, reconheceu com "99% de certeza", por meio de fotografia, um dos 18 skinheads presos como sendo o rapaz que chutou várias vezes a cabeça da vítima. "Ele era o mais forte e o mais agressivo entre eles e batia como se estivesse enlouquecido", disse o vendedor C.A.B., de 29 anos.
A testemunha, que já havia prestado depoimento ontem (09), foi ouvida de novo hoje. Ela disse que o grupo que matou o adestrador na madrugada de domingo era formado por cerca de 40 homens e mulheres. "As meninas assistiram às agressões dando risadas." Duas mulheres foram presas. Segundo C.A.B., elas eram oito. A polícia vai tentar identificar e prender esses outros agressores.
"Tive vontade de matar todos eles; só não fiz porque não tinha uma arma", afirmou C.A.B.. "Eles foram covardes, muito covardes; não deram nenhuma chance ao rapaz." A testemunha disse ter telefonado de seu celular para a Polícia Militar. "Vamos confirmar a existência dessa ligação, o que reforçará o depoimento", afirmou o delegado Jorge Carrasco, titular da 1.ª Delegacia Seccional.
C.A.B. disse que estava sentado em um canteiro, em frente da Secretaria Estadual da Educação, na Praça da República
centro de São Paulo, quando viu o grupo se aproximando. Ele estava comendo um quibe comprado em um restaurante. "Fiquei apavorado, mas não me mexi." Do outro lado, vinham o adestrador e o seu amigo, Dario Pereira Netto. Eles estavam de mãos dadas. "O grupo dividiu-se em dois para atravessar o canteiro e fez uma roda no momento em que cruzaram com os dois."
Netto correu. Seu amigo não conseguiu. "Ele já estava atordoado e caiu." C.A.B. disse que pensou em pedir socorro, mas ficou com medo. Um dos carecas gritou: "Parem, chega, já está bom!" Depois disse: "Vamos embora!" A maioria foi, mas "10 ou 12" ficaram ainda batendo na vítima. Por fim, só um ficou. "Fui ajudar o rapaz e vi bem o rosto do careca."
O rapaz estava com uma calça camuflada, uma camisa branca sem mangas e era branco e forte. "Quando cheguei, vi a última contração dele (Silva); o rosto estava machucado, um olho roxo e a nuca sangrava." Os agressores não levaram nada. Silva ainda estava com o relógio no pulso e o telefone celular em uma das mãos. "Senti a o pulso dele e tentei reanimá-lo; depois, chamei a polícia."
C.A.B. seguiu o grupo de skinheads e viu eles irem rumo à Avenida Rui Barbosa, próximo da Rua 13 de Maio, onde mais tarde os acusados foram presos. Seu depoimento de duas horas foi tomado pela delegada Henriqueta Caruso.
Dona do bar - Além dele, a delegada, que é assistente de Carrasco, ouviu a comerciante D.N., proprietária do bar Recanto dos Amigos, onde o grupo de carecas foi detido. "Meu bar não é um ponto de encontro desse grupo; no sábado, eles chegaram tranquilos e beberam cerveja como qualquer outro cliente." Ela disse que não viu nem ouviu nada de estranho antes da chegada da polícia. "Parecia coisa de filme."
A Delegacia Seccional também está fazendo um levantamento das páginas na Internet mantidas por grupos como Carecas do Subúrbio e Carecas do ABC. O objetivo dos policiais é demonstrar quais os pensamentos desses bandos. "Perguntei aos presos se eles odiavam negros e nordestinos e eles disseram que haviam dois negros e um baiano entre eles", afirmou Carrasco. "Então, perguntei se eles aceitavam homossexuais e um deles respondeu que não."
Os acusados presos negam o crime. Apenas um deles, Fernando Azadinho dos Santos, de 19 anos, admitiu ao depor no dia da prisão que "havia tomado conhecimento da agressão" ao adestrador quando se encontrou com os amigos carecas.

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