Campinas, SP, 14 (AE) - O motorista Adilson Frederico Dias Luz, considerado uma das principais testemunhas da CPI do Narcotráfico, registrou uma declaração em juízo afirmando que foi pressionado por dois promotores e um delegado a fazer as acusações que resultaram na prisão do advogado Arthur Eugênio Mathias, ocorrida no dia 30 de novembro. Luz deveria participar de uma acareação hoje com Mathias, em Brasília, mas não compareceu. Ele está desaparecido desde quarta-feira passada.
A declaração foi registrada dia 9 de dezembro, no 17º Tabelião de Notas de São Paulo, páginas 275 a 278. No documento, Luz afirma que os promotores Ricardo Silvares, do Ministério Público de Campinas, e Rogério Sanches Cunha, da Promotoria de Justiça de Igarapava, "o ensinaram o que deveria dizer" ao juiz. Na ocasião, o motorista acusou Mathias de chefiar uma quadrilha especializada no roubo de cargas. No documento apresentado hoje, porém, o motorista nega a participação de Mathias nos roubos.
O motorista foi preso em 04 de maio, no município de Igarapava, sob acusação de integrar uma quadrilha de roubo de carga. Em novembro, logo após os trabalhos da CPI em Campinas, ele teria pedido para ser ouvido novamente pelo juiz. Depois de prestar o depoimento acusando Mathias de chefiar a quadrilha, o motorista ganhou o benefício da liberdade assistida e foi solto no mesmo dia.
Na declaração registrada em juízo, Luz relata que, no dia 25 de novembro, foi procurado na Cadeia Pública de Igarapava por um delegado identificado apenas como "Dr. Pio" e um investigador. O delegado, segundo ele, disse que "tinha uma coisa boa para lhe propor". Os policiais, segundo Luz, o levaram para um encontro com o promotor Rogério Sanches Cunha no fórum.
O promotor, de acordo com a declaração registrada por Luz, "lhe sugeriu que, se incriminasse o advogado Arthur Eugênio Mathias, no caso do roubo da carga, teria sua vida facilitada e seria libertado ainda no dia seguinte". Segundo o motorista, enquanto falava, Cunha se aconselhava, por telefone, com o promotor Ricardo Silvares, de Campinas. "Foi aconselhado que enriquecesse sua história com detalhes para facilitar o convencimento do juiz", diz o documento.
No dia seguinte, segundo o motorista, os dois promotores acompanharam seu depoimento ao juiz. "Já no meio do depoimento, o juiz mandou soltar as algemas do declarante, ao final do depoimento comunicou que ele estava solto, devendo sumir, desaparecer", diz Luz em sua declaração. A prisão de Mathias foi decretada três dias após o depoimento de Luz.
O motorista diz que voltou para Campinas, onde mora e, na semana seguinte, participou de um encontro, no prédio do Ministério Público, com Silvares e os deputados Robson Tuma e Celso Russomano, que integram a CPI do Narcotráfico. Russomano, segundo a declaração, providenciou o embarque de Luz para Brasília, onde o acomodaria numa casa alugada e conseguiria emprego.
No documento, porém, Luz disse que desistiu da viagem após ser convencido por um primo a contar toda a verdade. "Ele se arrependeu ao saber que suas declarações haviam resultado na prisão de meu marido", disse hoje a mulher de Mathias, Naara Cristina Vilares. Segundo ela, o motorista fez a declaração em juízo acompanhado pelo advogado Lartes Torrens.
De acordo com Naara, Mathias chegou a atuar como advogado do motorista no caso das cargas roubadas, mas deixou o caso por falta de pagamento. Ela nega ter influenciado o motorista a modificar sua versão. "Ele tomou essa decisão porque ficou com a consciência pesada", afirma. Naara disse não ter contato com Luz desde o dia 09, quando o motorista registrou a declaração em juízo.
O promotores citados pelo motoristas negaram hoje as acusações. "Isso é uma farsa, uma imoralidade", protestou, Silvares. Ele acredita que Luz tenha sido induzido a voltar atrás em suas denúncias para livrar Mathias das acusações. "Temos informações de que ele (Luz) vinha recebendo propostas de dinheiro para livrar o advogado", disse. Segundo o promotor, o motorista também teria recebido ameaças de morte.
"Ele (Luz) deve ter cedido às propostas de suborno ou teve medo de morrer", afirmou o promotor. Ele garantiu não ter exercido nenhuma pressão sobre o motorista para obter as acusações que resultaram na prisão de Mathias. "Vamos apurar em que circunstâncias ele (Luz) prestou as declarações inocentando o advogado", afirmou.
Cunha disse que pedirá a revogação da liberdade assistida para Luz. "Como beneficiário da liberdade provisória, ele (Luz) deveria permanecer em local disponível e acessível à Justiça", disse o promotor. Até as 17 horas de hoje, o motorista não havia sido localizado.

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