Agência Estado
Do Rio
O Ministério da Saúde vai lançar no início de novembro uma campanha nacional para incentivar testes anti-HIV durante o pré-natal. O objetivo é identificar o vírus HIV no início da gravidez para impedir a transmissão de mãe para filho. A estimativa do ministério é de que existam em todo o País 12 mil gestantes soropositivas, mas apenas 25% receberam tratamento em 1998.
‘‘Podemos evitar a transmissão vertical (de mãe para o bebê) em até 75% dos casos, desde que a Aids seja diagnosticada no início da gravidez’’, afirmou o coordenador do Programa Nacional Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST)/Aids do Ministério da Saúde, Pedro Chequer. ‘‘Acredito que 2 mil crianças deixaram de ser infectadas em 1998.’
Unidades de saúde municipais e estaduais receberam ‘‘recomendação formal’’ do ministério, em 1998, para oferecer o teste anti-HIV às 2,5 milhões de gestantes da rede pública. Mas a falta de diagnóstico de grávidas soropositivas levou o governo federal a doar à Argentina medicamento suficiente para cuidar de mil gestantes e bebês.
‘‘Praticamente 100% das grávidas aceitam submeter-se ao exame, quando ele é oferecido pelos médicos no pré-natal’’, disse Chequer, durante o 9º Encontro Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids, no Hotel Glória, na zona sul do Rio. Ele reconhece que grande parte dos médicos não oferece o teste.
A auxiliar de limpeza Rose, de 30 anos, que participava ontem do encontro, foi vítima dessa falta de iniciativa. Mãe de três filhos, ela só fez o pré-natal na gestação do último bebê, há quatro anos. A médica dela tratou pneumonia, bronquite e emagrecimento - ela pesava 36 quilos no fim da gravidez - como anemia. Só quando a criança nasceu, com placas vermelhas pelo corpo e insuficiência respiratória, os médicos fizeram o exame anti-HIV.
Rose soube que ela e o filho recém-nascido tinham Aids na frente da mãe de 72 anos e dos filhos de 10 e 6 anos. Mais: a menina do meio também era soropositiva. ‘‘Meu filho poderia estar vivo ou eu poderia ter optado por aborto, mas essa médica não me deu direito de escolha’’, afirmou.
Segundo Chequer, o Ministério da Saúde treinou 2 mil ginecologistas e enfermeiros, que trabalham com gestantes, em 1998. ‘‘Alertamos quanto à questão ética de oferecer o teste anti-HIV’’, afirmou. Ele disse que, até o fim do mês, o ministério vai publicar uma tabela especial de reembolso a Estados e municípios que oferecem os exames rápidos, que dão resultado em até 20 minutos. A resposta do teste tradicional pode levar até quatro semanas.
Cerca de 900 pessoas reuniram-se ontem no Hotel Glória para discutir os preconceitos enfrentados por quem vive com Aids, a integração ao mercado de trabalho, desigualdades sociais e qualidade de vida.
‘‘Nos primeiros encontros, 150 pessoas reuniam-se para repassar informações sobre a doença; hoje, nós juntamos quase mil para discutir a qualidade de vida de quem tem Aids’’, comparou a coordenadora do Grupo Pela Vida de Niterói e organizadora do Vivendo, Mônica Barbosa. O encontro vai até amanhã.

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