Havana, 01 (AE-IPS) - Terroristas de origem cubana estariam planejando assassinar o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, por causa de sua declarada simpatia por Cuba, sua "filiação socialista" e o suposto desejo de "cubanizar" o regime venezuelano, segundo Fidel Castro.
O presidente cubano expôs detalhadamente na noite de terça-feira a suposta conspiração contra Chávez a jornalistas venezuelanos que viajaram a Havana em resposta a um "pedido" do governo da ilha.
"Não consultei o presidente Chávez sobre esta denúncia", esclareceu Fidel. O presidente venezuelano visitou Havana em 18 e 19 de novembro.
Fidel, que já sobreviveu a cerca de 600 complôs contra sua vida nos últimos 40 anos graças à eficiência dos serviços de segurança cubanos, garantiu contar com informações precisas e confiáveis das direções de Inteligência e Contra-inteligência do seu país.
Segundo as fontes, o atentado seria realizado este mês por terroristas cubanos que, procedentes da cidade norte-americana de Miami, desembarcariam na Venezuela via um terceiro país, a fim de evitar suspeitas das autoridades venezuelanas.
Eusebio de Jesús Peñalver, Ernesto Díaz Rodríguez e René Cruz, integrantes de grupos anticastristas da Flórida, teriam se reunido em 18 de novembro em Miami para organizar o atentado.
Cruz teria sido treinado para este tipo de atividade pela Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos, mas Fidel descartou a participação de Washington ou da CIA na conspiração.
Não acredito que "nem a CIA nem o governo dos Estados Unidos tenham se incomodado" demasiadamente com as posições de Chávez em relação à Cuba e tampouco "me consta que haja algum venezuelano" envolvido nesses planos, declarou.
Os preparativos teriam sido feitos no escritório de Peñalver, em Miami, que mantém vínculos com o cubano anticastrista Luis Posada Carriles, residente em El Salvador.
Fidel chegou a oferecer o endereço completo e o telefone do suposto escritório de Peñalver. Telefonemas feitos esta manhã para o número oferecido eram atendidos por uma secretária eletrônica que não identificava a pessoa ou o negócio na gravação.
Posada Carriles, responsável pelo atentado contra um avião da Cubana de Aviación em 1976, admitiu ter sido o arquiteto de uma onda de atentados a bomba contra instalações turísticas de Cuba entre abril e setembro de 1997.
Os novos projetos deste "lutador pela liberdade de Cuba", como Posada Carriles é considerado por seus seguidores, incluem sabotagem contra instalações econômicas da ilha e a aviões de qualquer linha aérea que voe entre Cuba e os países da América Central, garantiu Fidel.
Os fundos para o complô contra Chavéz seriam oferecidos pela Fundação Nacional Cubano-americana (FNCA), a organização mais influente do exílio cubano nos Estados Unidos, a quem o governo de Fidel acusa de ter financiado as operações terroristas de dois anos atrás na ilha.
O dinheiro seria entregue por Arnaldo Monzón Placencia, diretor da FNCA, segundo a versão de Fidel.
Quando perguntada sobre a acusação, a porta-voz da FNCA, Ninoska Perez, riu. "O que posso dizer sobre isso? É tão ridículo."
O assassinato de Chavéz seria um dos "efeitos catastróficos" do que Fidel considera a "onda de críticas perversas e grosseiras" contra o presidente venezuelano por suas opiniões favoráveis ao regime cubano.
A seu ver, para os extremistas no exílio a imagem de "Cuba e Venezuela como a mesma coisa" e a idéia de que "Cuba vai receber petróleo venezuelano" seriam motivos suficientes para que eles tentem eliminar Chávez.
Fidel gastou mais de duas horas da noite de terça-feira para desmentir versões da imprensa de que o presidente venezuelano pretenderia impor na Venezuela um regime socialista de estilo cubano.
Chávez expressou em sua visita a Havana sua esperança de que a Venezuela e os demais países do Caribe marchem "até o mesmo mar de felicidade para o qual marcha o povo cubano".
A frase, associada a outras defesas do sistema cubano feitas por Chávez, se converteu em um bumerangue às vésperas do referendo constitucional convocado para o dia 15 deste mês na Venezuela.
Empresários economistas e políticos que lideram um movimento pelo "Não" no referendo utilizaram a afirmação do presidente para confirmar sua interpretação do projeto de Constituição como "neo-socialista, militarista e estadista".
O texto foi formulado por uma assembléia de 131 membros para substituir a Constituição de 1961 e dotar o governo de ferramentas legais para "refundar" a democracia venezuelana.
"Não se pode afirmar sob nenhum pretexto que esta é uma constituição socialista", disse Castro, ao comparar vários capítulos da carta fundamental vigente em Cuba com o projeto elaborado na Venezuela.
Para Castro, não pode haver uma constituição socialista que garanta a propriedade privada ou inclua a figura do patrão em algum de seus capítulos, como ocorre com o texto que os venezuelanos deverão escolher entre "Sim" e "Não".
Ele acrescentou que Chávez "é um revolucionário como foi (George) Washington", o primeiro presidente dos Estados Unidos (1732-1799), mas "nunca escutei dele uma única palavra relacionada com a idéia de estabelecer o socialismo na Venezuela".
O presidente venezuelano é uma "das pessoas mais bondosas que conheci", incapaz de cometer uma injustiça e distanciado de toda a violência. Mas "não é um homem que se possa encurralar ou subestimar", advertiu Castro.

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