Terror durante a madrugada: estoura a 2ªrebelião no fim de semana
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domingo, 24 de outubro de 1999
Por Márcia Vaisman 
São Paulo, 25 (AE) - Por volta das 23 horas de domingo, uma espessa fumaça envolvia o Complexo Imigrantes da Febem. Menores rebelados haviam ateado fogo aos colchões, dando início à segunda rebelião na unidade no fim de semana. O barulho de explosões de botijões de gás fazia crescer o clima de medo e incerteza. O Comando de Choque havia chegado às 22 horas, logo depois do início da rebelião. Os policiais permaneceram imóveis na porta de entrada por duas horas. Havia suspeitas de que menores ameaçavam atear fogo em dez funcionários. Eles estariam amarrados nas grades e presos a eles baldes com álcool.
Os policiais observavam os adolescentes circulando livremente em toda a unidade. Apenas intervieram quando um bando de cinco meninos espancou um dos menores reféns. Sob protestos, o adolescente espancado foi afastado dos demais. "Ele é dedo-duro e tem de morrer", gritavam. À 0h05, cerca de cem homens do Comando de Choque entraram na unidade. A partir daí, barulhos de tiros de borracha e bombas de efeito moral foram ouvidos durante toda a madrugada. De tempos em tempos, a unidade de resgate do Corpo de Bombeiros recolhia feridos entre policiais militares, funcionários e menores. Todos eram encaminhados para os pronto-socorros do Jabaquara, na zona sul, e de Diadema, na região do ABC. "àdio" - Ferido, um dos monitores da ala A tentava escapar junto com oito colegas. Um bando de meninos avançava sobre eles. Desesperados, recuaram e se trancaram numa sala vazia da unidade. "Os meninos incendiaram um colchão para tentar nos matar asfixiados", contaria depois o monitor ferido, Cláudio Sanches, de 53 anos. Segundo ele, logo depois que entraram na sala, os infratores conseguiram derrubar a parede com uma barra de ferro e começaram a espancá-los. "Eles tinham ódio no olhar".
À 0h40, o presidente da Febem, Guido Andrade, entrou no local, sem dar entrevistas à Imprensa. Trinta minutos depois, a Cavalaria pôs-se de prontidão em toda a extensão do complexo. Lá permaneceram durante toda a madrugada. Somente de manhãzinha, quando uma turma de rebelados saiu para o pátio externo da unidade, tendo nas mãos paus e pedras, é que os PMs ameaçaram atacar. Aos gritos e empunhando espadas, eles contiveram os infratores, que recuaram para trás do portão.
Durante toda a madrugada, unidades do Corpo de Bombeiros
ajudados por meninos da unidade educacional 4, do próprio complexo, tentaram apagar o fogo que se espalhava pela unidade. Em vão. Infratores de todas as alas empilhavam simultaneamente colchões nos telhados, incendiando-os. Família - Aos poucos, mães e mulheres de internos iam chegando. Com expressão de desespero no rosto, muitas não sabiam se o parente estava vivo ou morto. "Meu filho é novato e os monitores avisaram que ele está como refém", desesperava-se Maria Elisabeth de Sá. Proveniente de uma família de classe média, o adolescente foi preso por tráfico de drogas há 15 dias e aguarda julgamento.
A mãe e a namorada, Cristiane, de 21 anos, afirmavam que viram o rapaz sujo e cheio de sarna na primeira visita, por causa da sujeira da unidade. "É desumano, pois eles dividem um sabonete entre 300 garotos e têm um minuto para tomar banho", indignava-se Elisabeth. Negociação - Por volta das 3 horas, o monitor Cláudio dos Santos
de 32 anos, tentou negociar, por conta própria, a libertação dos reféns. Quatro menores que mantinham monitores e internos como reféns exigiam falar com a Imprensa. Friamente, os menores disseram que 10 monitores e 30 "caguetas" (internos considerados dedos-duros) estavam dominados. Segundo eles, a negociação só iria ocorrer se todos os menores fossem mandados para suas casas.
"Aqui é um inferno e não temos nada a perder; é matar e morrer", disse um dos "líderes" da rebelião, M.S., de 17 anos. O diretor da unidade, Jorge Guedes, impediu o término da negociação com os menores. Os quatro foram detidos pelos PMs e o monitor foi retirado do local. Como os menores não voltavam, o clima da rebelião ficou mais tenso e o barulho de explosões aumentou. "Meu menino" - O dia estava clareando quando a Cavalaria agiu para impedir a saída de alguns menores. Por volta das 10 horas, os infratores aglomeraram-se nos telhados e conversaram com o Comando de Choque. Logo em seguida, um grupo saiu em dois ônibus rumo à Unidade Tatuapé. Nervosas, as mães jogavam-se contra os ônibus. Algumas desejavam sorte para os filhos. Era o caso de Maria Lucy. "Meu menino estava com medo e chorava o tempo todo".


