Território cercado pelo medo
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de outubro de 2012
Micaela Orikasa <br> Reportagem Local 
Londrina - ''É um medo que fica rondando o bairro. A gente só lamenta porque tudo isso é consequência da droga. Fico com o coração partido em ver tantos jovens morrendo.'' O desabafo é de uma comerciante e moradora do Jardim Leonor, na Zona Oeste de Londrina, uma das regiões consideradas mais violentas da cidade, por causa da proximidade com os jardins Nossa Senhora da Paz e Leste-Oeste e as favelas Vila Rica e da Rua Pantanal.
Nas últimas semanas, a tranquilidade do bairro foi substituída por uma onda de insegurança após mais um episódio de conflito entre grupos rivais, mais especificamente entre as gangues dos jardins Leonor e Santiago e Pantanal e Vila Rica. O caso começou há cinco meses por uma briga de trânsito em um ponto de tráfico de drogas.
Na reportagem publicada na semana passada na FOLHA, a Polícia Civil deu detalhes sobre a ''guerra'' entre criminosos e afirmou estar investigando os envolvidos. Só na primeira semana deste mês foram assassinadas oito pessoas ligadas a esse conflito.
Apesar de uma aparente ''trégua'' entre as gangues nos últimos dias, moradores e comerciantes se mantêm calados sobre o assunto, afirmando apenas que mais uma vez uma onda de insegurança paira sobre as ruas. ''Nessa rivalidade entre as favelas, as pessoas se matam em qualquer lugar e horário, sem considerar se vai atingir um inocente ou não'', desabafou outro comerciante do Leonor, que também pediu para não ser identificado. ''Fecho as portas mais cedo e, mesmo assim, tenho receio de andar pelo bairro à noite. Não existe mais liberdade há muito tempo'', diz.
Em uma breve trajetória sobre essa rivalidade, o ano de 2003 ficou marcado pelo ápice das brigas de gangues, que resultaram em 193 mortes, sendo 53 na Zona Oeste. O estopim seria uma disputa por bocas de fumo, iniciada em 2000. Apenas seis anos depois, em 2006, um acordo de paz foi selado entre os líderes dessas facções e a população comemorou o período de tranquilidade.
''Há muitos anos o bairro é visto como um palco da violência. O tráfico de drogas e a disputa de poder são as principais situações que promovem essa realidade'', comenta o padre Jaime Botero, da Paróquia São José Operário, no Jardim Leonor, que muitas vezes é procurado pelas famílias atingidas diretamente por essa ''guerra''.
''São pessoas que vivem nesse meio e veem seus filhos ou companheiros morrerem violentamente. Elas nos procuram porque a figura do padre nessas comunidades é muito forte, pois a maioria não confia mais na polícia. Eles querem um amparo, um conforto e a Igreja não quer levá-las apenas a rezar, mas oferecer um pouco de dignidade, seja por meio de projetos sociais ou uma ação comunitária'', revela.
Na visão da doutora em Geografia Humana, Márcia Siqueira de Carvalho, docente da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e pesquisadora há quatro anos sobre a violência urbana no município, o investimento em projetos sociais e até vinculados à Igreja é o único caminho para essas pessoas terem oportunidades.
''Apenas uma atuação em conjunto pode transformar essas comunidades em territórios seguros e habitáveis. São duas ações distintas e necessárias. Uma é dar as mínimas condições de vida para a comunidade enxergar novas possibilidades e outra é considerar que quem vai impedir o traficante é a polícia, que tem constitucionalmente o dever de proteger o cidadão'', justifica.
Segundo a pesquisadora, acabar com o domínio do tráfico e desarticular o crime organizado pode ser visto por muitos como um trabalho de ''enxugar gelo'' considerando que há um mercado consumidor crescente na cidade. Porém, ela faz uma comparação com o cenário do Rio de Janeiro ao afirmar que é possível recuperar áreas dominadas. ''No Rio, a coisa foi ficando tão 'frouxa' que foi preciso um plano de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) para a retomada de território. Ou as autoridades ficam espertas em relação à Londrina ou então também podemos perder o controle da situação.''
Para o delegado-chefe da 10 Subdivisão Policial, Márcio Amaro, no caso dos crimes cometidos em série o importante é investigar os suspeitos que deram origem ao problema. ''Só é possível cessar a sequência de mortes com prisões dos principais envolvidos e a polícia já está avançando nas investigações'', afirmou.
Amaro lembrou que o clima de animosidade entre os bairros da Zona Oeste tem origem antiga. Ele acredita que os conflitos do início da década passada entre as favelas Pantanal e Nossa Senhora da Paz podem ter ligação com o atual panorama de violência. Para ele, há questões familiares envolvidas. ''Há descendentes dos envolvidos naquele conflito no atual confronto'', justificou. (Colaborou Lúcio Flavio Moura)


