Os ilusionistas da Terceira Via Por Mark Sommer
BERKELEY, EUA, 19 (AE-IPS) - A vitória de coalizões de centro-esquerda na Grã-Bretanha, França, Alemanha e Itália nos últimos anos tem levado alguns políticos a anunciar o surgimento de uma nova "Terceira Via" entre o capitalismo "laissez faire", a social-democracia progressista e uma desacreditada tradição comunista.
Os instintos políticos de Bill Clinton, inclinados ao compromisso para fazer concessões a uns e a outros, com os quais governa a partir do que ele chama de "centro vital", têm servido de inspiração para os líderes da Grã-Bretanha, Tony Blair, e da Alemanha, Gerhard Schroeder, assim como do Canadá, Jean Chretien, e até pelo da Argentina, Carlos Menem.
Clinton e Blair têm atraído os eleitores da corrente principal da esquerda para implementar políticas amplamente defendidas pela direita. Os políticos da Terceira Via afirmam que seu capitalismo é novo e mais compassivo, livre da carga de um dispendioso Estado de Bem-Estar social e além do mais atualizado
posto que apóia as tecnologias de ponta.
"Nossa política não é nem liberal nem conservadora, mas, sim, uma mistura das duas, é diferente", declara Clinton. Mas um exame mais atento de suas ações revela um modo de fazer política desprovido de princípios e guiado pela ambição pessoal às custas dos próprios setores que os campeões da Terceira Via dizem representar.
Devido a suas obrigações com as mesmas forças empresariais de seus antecessores conservadores, esses dirigentes não são influenciados pelo vibrante novo pensamento que surge atualmente na sociedade civil.
O governo Clinton, agora em seu sétimo e penúltimo ano, representa o melhor exemplo para situar em seu lugar as políticas da Terceira Via. Tanto em 1992 quanto em 1996, Clinton fez (e ganhou) sua campanha eleitoral como um populista tradicional, depois de atrair os eleitores tradicionais do Partido Democrata, defendendo políticas moderadamente progressistas.
Mas uma vez na presidência, ele abandonou rapidamente seu partido e os poucos princípios que lhe sobravam ao assinar draconianas reformas da assistência social, ao aumentar o orçamento militar e ao defender uma privatização limitada da previdência.
A fonte principal de indignação entre seus adversários conservadores não são nem seu alegado liberalismo nem suas flagrantes transgressões sexuais, mas, sim, sua habilidade camaleônica de apoderar-se da agenda de seus rivais e depois reivindicar o crédito por seu êxito.
Em questão econômicas e de segurança mundial, nas quais é seguido por Blair, Schroeder e outros políticos da Terceira Via, a atuação de Clinton revela um igualmente pouco escrupuloso apoio à elite financeira.
Animados pela triunfalista ideologia do livre mercado do pós-Guerra Fria e guiados pelas agendas daqueles que nos serviços financeiros e das indústrias de alta tecnologia respaldaram suas campanhas, Clinton e seus sócios terceiristas estão construindo uma economia global que outorga uma liberdade irrestrita para os investidores, mas deixa os trabalhadores, o meio ambiente e as comunidades locais em todo o mundo à mercê de pilhagem dos que buscam lucros rápidos.
Os resultados a curto prazo desta estratégia econômica têm sido bem sucedidos, se forem aceitos sistemas de medição defeituosos como o Produto Interno Bruto e o aumento da produtividade, mas os custos humanos e sociais são consideráveis.
O já grande fosso existente entre ricos e pobres está se convertendo num grande abismo. A oposição popular à versão empresarial da globalização está surgindo em todos os cantos do planeta e é provável que se manifeste num enfrentamento sem precedentes na reunião de cúpula da Organização Mundial do Comércio que será realizada no fim de novembro em Seattle - a chamada Rodada do Milênio.
Em seu núcleo, a Terceira Via é mais um conceito de "marketing" do que um programa político, uma personificação desta era de despolitização e comercialização de tudo o que existe.
Qual o futuro da Terceira Via? É improvável que a herança de Clinton dure além de sua presidência, já que até mesmo seu vice-presidente, Al Gore, está agora expressando seu desgosto com ela.
Do mesmo modo, Schroeder está enfurecendo os eleitores de seu partido ao tratar de ficar bem com os empresários, os quais continuam o abominando. Enquanto isto, ele perde uma eleição atrás da outra.
Os políticos da Terceira Via estão descobrindo que sua traição aos que o levaram ao poder e sua condescendência com aqueles cuja consideração nunca poderão obter, os deixa com poucos amigos em todos os lugares. Assim, a Terceira Via não vai a lugar nenhum.

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