Agência Estado
De São Paulo
Um novo estudo sobre a reposição hormonal para mulheres após a menopausa acaba de levantar mais suspeitas sobre os riscos dessa terapia. O estudo indica que o uso conjunto dos hormônios estrógeno e progesterona pode elevar o risco de câncer de mama. No entanto, nem todos os médicos estão dispostos a mudar suas práticas por causa desses resultados. Especialistas americanos e brasileiros consultados pela reportagem disseram que o estudo constitui um sinal de alerta, mas não deve ser aceito como definitivo. Também se acredita que os benefícios são maiores que os riscos.
A pesquisa, realizada por médicos do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos (NCI) e publicada no Journal of the American Medical Association, envolveu 46 mil mulheres. De acordo com suas conclusões, a combinação do estrógeno e da progesterona aumenta o risco de câncer de mama em 8% ao ano - o que significaria um risco 80% maior em 10 anos de terapia.
Após tomar conhecimento do estudo, o ginecologista José Antônio Marques, diretor do Centro de Referência de Saúde da Mulher da Secretaria da Saúde do Estado, disse que ele deve ser visto como mais um peso na balança usada para medir os benefícios e riscos associados ao tratamento para cada paciente. ‘‘O estudo não comprova nada, mas é importante saber que existe o risco.’’
Marques, que trabalha com a progesterona há quatro anos, disse que não pretende mudar seus métodos de tratamento, e vai continuar a prescrever o hormônio ‘‘criteriosamente’’. A decisão de usar ou não a progesterona, disse, deve continuar a ser feita caso a caso, baseada numa análise dos fatores de risco de cada paciente, como peso, número de filhos, histórico do ciclo menstrual, condição do endométrio e ocorrência de câncer na família.
Mesmo que o risco elevado de câncer de mama seja real, mulheres que precisam fazer reposição hormonal não devem desconsiderar o uso do tratamento, disse o oncologista clínico Sérgio Daniel Simon, do Hospital Albert Einstein. ‘‘Não há dúvida que os benefícios são maiores que os riscos.’’
Desde que um pequeno estudo relacionou a progesterona ao câncer de mama pela primeira vez há alguns anos, já foram realizadas várias outras pesquisas para comprovar a relação, disse o ginecologista Marques. Alguns acabaram provando exatamente o contrário. Uma conclusão definitiva ainda pode demorar alguns anos, afirmou.
Um estudo de menores proporções, com cerca de mil mulheres, realizado por cientistas escoceses e publicado neste mês pelo British Medical Journal, não encontrou relação entre a terapia de reposição hormonal e um aumento no risco de câncer de mama.
Para o médico e pesquisador William Creasman, uma autoridade em terapia hormonal da Universidade da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, a pesquisa patrocinado pelo NCI é apenas mais uma entre muitas e com resultados contraditórios. ‘‘Eu sei de outros estudos que não mostram nenhuma relação’’, disse ao Estado. ‘‘Se houver risco, é extremamente pequeno.’’
Apesar de os aumentos de casos indicados no recente estudo parecerem altos, Creasman lembra que porcentagens podem ser enganosas. Por exemplo, se a chance de se desenvolver câncer de mama subisse de 1 em 100 mulheres para 2 em 100, isso representaria um aumento de 100%. De acordo com Marques, a reposição hormonal é uma terapia muito comum no mundo todo. Após a menopausa, o estrógeno é usado para combater a osteoporose e aliviar sintomas como a insônia, calores e secura vaginal. Há indícios também de que o hormônio ajuda a prevenir complicações cardíacas e até demência em idosos. Por outro lado, sabe-se que aumenta o risco de câncer uterino. A progesterona é administrada para combater esse ponto negativo, porque reinicia o ciclo menstrual.
Muitas brasileiras, no entanto, escolhem fazer a terapia por motivos estéticos, aponta Simon. ‘‘Hoje em dia é moda.’’
O ponto forte do estudo do NCI é o grande número de mulheres, que foram acompanhadas por meio de cartas e telefonemas por um período médio de dez anos. O trabalho foi criticado, porém, pelo fato de seus resultados serem aplicáveis apenas para mulheres que fazem a terapia atualmente ou fizeram o tratamento nos últimos quatro anos e também para mulheres magras. Para mulheres gordas, que produzem naturalmente mais estrógeno, os resultados não foram conclusivos.
O médico Walter Willett, da Escola de Saúde Pública de Harvard, que escreveu um editorial acompanhando a publicação do estudo, concluiu que a decisão sobre o uso da terapia de reposição hormonal continua complicada.