Agência Folha
De Campinas
A rebelião da Cadeia Pública de Piracicaba (80 quilômetros de Campinas) terminou ontem após 23 horas do início com três policiais feridos e um preso morto. Cerca de 130 pessoas – a maioria familiares dos presos, entre elas 25 crianças – ficaram reféns.
Eles começaram a ser liberados por volta das 13h15 de ontem. Segundo o delegado regional, Orlando Miranda Ferreira, os presos ficaram no interior da cadeia para proteger seus familiares presos.
Os reféns não ficaram feridos, mas 42 deles foram atendidos no posto de saúde da Vila Rezende. A maior parte era mulher e criança e a maioria dos atendimentos foi de pessoas com problemas de pressão. Os presos que ocupavam a cadeia começaram a rebelião antes de uma tentativa de resgate frustrada. A cadeia tem capacidade para 512 presos e estava com 670.
Ao contrário do que a polícia pensava, eles já estavam armados dentro das celas e, por isso, conseguiram render os carcereiros. O motim estourou no setor de triagem, que fica entre o portão principal e a entrada dos pavilhões. Os detentos, segundo funcionários, renderam dois carcereiros minutos antes da chegada do primeiro carro de resgate. Uma funcionária do cadeião conseguiu sair, trancou o portão e chamou reforço da Polícia Militar. O plano era sair do presídio e encontrar dois carros do lado de fora.
Antes disso, soltariam outros presos para enganar a polícia. Os ocupantes desses veículos foram recebidos a tiros pelos policiais que estavam do lado de fora do presídio e por equipes que chegavam para reforçar a resistência.
A polícia encontrou baterias de aparelhos celulares dentro das celas, com os quais os detentos estariam se comunicando com os homens envolvidos no resgate. Dentro do cadeião, mais de 50 presos ocuparam o setor administrativo, as muralhas e as torres de observação.
Eles também invadiram o almoxarifado da cadeia e roubaram uma metralhadora, seis espingardas calibre 12, seis pistolas e 11 revólveres calibre 45. A polícia suspeita que os parentes entraram com as armas no presídio e abriu inquérito para apurar o caso.
Houve troca de tiros com policiais militares que se reuniram na frente da cadeia para conter a rebelião. Dois policiais civis foram feridos e o soldado da PM Waldemar Rota levou um tiro no olho. Até as 18h30 de ontem, Rota estava internado em coma induzido no Hospital dos Plantadores de Cana de Piracicaba.
Pelo menos 20 presos fugiram no resgate. Nenhum deles havia sido encontrado até o final da tarde. Os rebelados atearam fogo no setor administrativo do presídio, local onde ficam arquivados o processo dos presos.
Durante a madrugada e a manhã de ontem houve troca de tiros entre os amotinados e a polícia. Cerca de 250 policiais civis e militares trabalharam na ação.
Os presos queimaram caixas de madeira para poder cozinhar a comida dos mais de cem parentes que passaram a noite no cadeião de Piracicaba. Arroz e macarrão foram a refeição da noite, principalmente para as crianças, junto com pacotes de bolacha. A polícia cortou a água e a energia elétrica durante toda a noite.
Os presos dormiram juntos com seus familiares. ‘‘Eles não fizeram mal para a gente. Só pediam para que todo mundo ficasse calmo e que logo estaria tudo acabado , disse Sueli Brito, 27, mulher de um dos presos, que passou a noite na cadeia.
O preso Oliel Ribeiro, apontado como um dos líderes, veio para Piracicaba há quatro meses, transferido da penitenciária de Araraquara. Segundo a direção da cadeia, ele estava em trânsito, ou seja, mudou de cadeia porque precisava depor em outros processos. A medida facilitaria a escolta. A polícia suspeita que o grupo de resgate também estaria buscando o detento José Maria Duarte, preso por roubo de carga. Até as 19 horas, não havia um levantamento com o resultado da revista na cadeia e com o número total de fugitivos.
Esta foi a quarta rebelião no ‘‘cadeião de Piracicaba desde o dia 25 de agosto de 95 quando foi inaugurado.
Pelo menos 30 presos já morreram em rebeliões, tentativas de fugas e acerto de contas dentro da cadeia.

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