Tensão nas alturas
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domingo, 05 de janeiro de 2014
Celso Felizardo<BR>Reportagem Local 
Londrina - Dificilmente quem está em casa em frente à televisão ou computador se lembra que para manter estas atividades corriqueiras existe uma equipe de eletricistas que se arrisca nas alturas para fazer a manutenção das linhas de transmissão de energia elétrica. Por dia, eles chegam a escalar até 15 torres em alturas que ultrapassam os 40 metros. Em alguns casos, o serviço é feito sem a interrupção da energia de até 500 mil volts. Qualquer erro pode ser fatal.
O trabalho encarado como loucura por muitos é a paixão da vida de Armando Guimarães, de 51 anos. Ele é o instrutor da Equipe de Operações Especiais e Resgate em Alturas da Copel. No centro de treinamento da companhia, na zona leste de Londrina, Guimarães ensina os primeiros passos para os novatos. O treinamento é aplicado em uma estrutura de 15 metros, que simula torres de transmissão.
A primeira etapa é trabalhar o psicológico dos alunos. "Já teve gente que travou ali em cima e teve de ser retirado. Mas, na maioria das vezes, eu subo junto. Isso passa confiança e a pessoa perde o medo", conta. Há três níveis de treinamento. O básico, de 16 horas, qualifica o profissional a fazer os reparos nas torres. Com o dobro de horas, o aluno sai preparado para retirar um colega em casos de emergência. O último, de 40 horas, é destinado à formação de instrutores. A cada dois anos, os trabalhadores passam por reciclagens.
A equipe de Londrina é considerada o grupo de elite da Copel. "É o trabalho que ninguém quer fazer", brinca Guimarães. Entre estes serviços mais arriscados, o mais recente foi a manutenção das chaminés da Usina Elétrica a Gás de Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). "Com o vento forte, as placas de alumínio se soltaram, então nós subimos a mais de 60 metros para arrebitar as chapas na estrutura", conta João Ricardo Teodoro, de 33.
Teodoro está há menos de um ano na atual função, mas conta que gosta da adrenalina. "Sempre gostei de altura, mas tinha receio da alta tensão; depois dos cursos de segurança, descobri que podia ganhar dinheiro para fazer o que gosto." Ele adianta que para ser um profissional das alturas são necessários alguns pré-requisitos. "Tem que ter um bom preparo físico e estar com a cabeça tranquila, pois é um serviço que não admite erros", frisa.
O mais difícil para Teodoro foi convencer os pais de que o trabalho é seguro. "Eles têm muito medo. Meu pai, inclusive, é militar e não gosta nem de ver as fotos que faço lá de cima", lembra. Para ele, o vento é o maior desafio. "O maior medo é das rajadas de vento; a torre balança e parece que vai cair", revela. Para se estabilizar em pequenos espaços de apoio, ele usa algumas técnicas aprendidas no curso.
Além do vento, outro fator de risco é a "linha viva", jargão usado para definir o trabalho sem a interrupção da energia. Para que nada dê errado, além do treinamento há a importância da utilização de equipamentos de primeira linha. Parte dos instrumentos usados na Copel é importada da França, como o cinto de paraquedista e o trava quedas. Até mesmos as cordas são especiais, homologadas pelos órgãos de segurança do trabalho.
A corda, segundo Armando, é o segredo do serviço em altura. "Trabalhar nas alturas é saber fazer nós", resume. Com habilidade, os dedos percorrem a corda com idas e voltas que resultam em vários tipos de nós, um para cada ocasião. Eles utilizam duas cordas com cores diferentes: a principal e a reserva, para situações de emergência. "Antes de cada operação há uma avaliação do trabalhador. Se ele não estiver bem não sobe, fica preparando os equipamentos no chão", explica Guimarães.
Há 32 anos nas alturas, 25 deles na Copel, Guimarães já planeja a aposentadoria. Mas se engana quem pensa que ele quer permanecer com os pés firmes no chão. Já montou uma escola de arvorismo em clube da cidade. Lá, ele ensina técnicas de rapel. O maior orgulho dele é ver o interesse do filho de 14 anos, que já se arrisca nos primeiros degraus do esporte. "No trabalho, usamos o alpinismo industrial, diferente do esportivo que aplico no clube para os fãs de aventura", compara. "Até quando puder vou continuar subindo. É o que faço de melhor".
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