São Paulo, 25 (AE) - As relações entre o Alto Comando da Polícia de Brasília e a coordenação da Marcha dos 100 mil ficaram tensas hoje, depois de três dias de amabilidades e convivência pacífica entre forças militares e sindicalistas. Durante reunião no gabinete do secretário da Segurança Pública, Paulo Castelo Branco, o vice-presidente do Sindicato dos Servidores e Empregados do Distrito Federal, Cícero Rola, anunciou que amanhã (26) cedo 10 mil funcionários e estudantes de escolas públicas sairão em passeata, a partir dos portões do Palácio do Buriti (sede do Governo do Distrito Federal) até a Catedral - onde será promovida a concentração da marcha.
"Isso para nós é uma surpresa", reagiu Castelo Branco. "Até hoje nós estávamos fazendo um planejamento com vistas a uma marcha nacional e agora o senhor vem falar em marcha regional?" Com um adesivo fixado no lado direito do peito ("Fora FHC e FMI"), Rola ergueu o tom da voz: "Os servidores locais também têm muitas reivindicações e protestos em relação ao governo Joaquim Roriz (PMDB)", retrucou. "Nós pretendemos começar a nossa marcha pelo Buriti".
Durante dez minutos, o pacto de boa-vizinhança esteve sob ameaça. Preocupado com alterações bruscas de última hora na programação, o comandante-geral da Polícia Militar, coronel Antonio Ribeiro da Cunha, tentou dissuadir Rola da marcha local. "Nós vamos fechar a Esplanada dos Ministérios às 6 da manhã, o trânsito vai ficar muito lento", advertiu o coronel ao ser informado de que os manifestantes do DF deverão ocupar pelo menos 50 ônibus. "Essa deliberação foi tomada há 15 dias", insistiu o sindicalista.
Diante do impasse, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT)-DF, José Zunga, tomou a palavra e ponderou a Rola sobre a possibilidade de o protesto do funcionalismo de Brasília ter início na concentração da Marcha dos 100 mil. "Isso aí é um problema da coordenação nacional do Fórum das Lutas", retrucou Rola. "Se não informaram aos senhores sobre o protesto não é culpa nossa."
O secretário Castelo Branco recuperou o controle da negociação ao oferecer o estacionamento do Gran Circo Lar - ao lado da Catedral - para abrigar a frota de ônibus dos servidores brasilienses.
Aparentemente convencido, Rola comprometeu-se a "levar essa preocupação aos companheiros". A reunião prosseguiu em tom mais ameno quando Zunga distribuiu aos homens da polícia cópias de uma cartilha de boas-maneiras, intitulada "Bem-vindos a Brasília". O documento tem duas páginas e atesta que a manifestação "é política, ordeira e pacífica".
Todos os integrantes da marcha irão receber a cartilha com orientações do tipo: "Não aceite qualquer provocação; você é responsável pelo ato, ajude a manter a ordem". A CUT recomenda aos manifestantes que evitem consumo de bebibas alcoólicas e usem "protetor solar, chapéu, boné".
Zunga disse que a marcha será "uma aula de cidadania". O secretário da Segurança filosofou: "Nossa polícia está desarmada de espírito." Mas as tropas que a partir de hoje começaram a ocupar a Esplanada dos Ministérios e arredores estão armadas. "Nossas balas são de borracha", garantiu o coronel Ribeiro.
A avenida que atravessa os edifícios do governo federal e leva ao Congresso Nacional será tomada por um efetivo de 1.500 soldados e oficiais, além de 200 bombeiros. Militares estarão espalhados em pontos estratégicos, no topo dos ministérios, com binóculos para observar os movimentos da multidão. Dezoito caminhões e carros do Comando do Corpo de Bombeiros permanecerão estacionados ali - 10 Unidades Táticas de Emergência (ambulâncias), 4 Unidades de Resgate, dois carros-pipa (4 mil litros de água em cada um) e dois de comunicação.
Outros 4 mil policiais militares foram recrutados. Eles irão patrulhar outras áreas - rodoviária, setores das autarquias Sul e Norte e acessos à cidade - para evitar distúrbios. Pelo menos mil policiais civis permanecerão nas proximidades da Esplanada, parte deles reforçando os plantões das duas delegacias instaladas na região.
No pátio entre o Palácio do Planalto e o Ministério da Justiça está aquartelado o QG do Alto Comando e o Batalhão de Choque da PM. São 450 homens munidos de escudos à prova de bala, capacetes especiais e um formidável estoque de bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo. Fazem parte dessa força reserva os efetivos do canil e da cavalaria (dois esquadrões com 140 cavalos).
Hoje cedo, os militares fizeram uma varredura ao longo da área que circunda os ministérios. Espalhados sobre o gramado e calçadas foram recolhidos pedaços de pau, pedras e garrafas vazias - instrumentos que podem ser usados como armas num eventual confronto, segundo avaliação do coronel Jair Tedeschi, coordenador de Planejamento da Secretaria de Segurança.

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